"A vida dele era serviço, casa e Pavilhão 9", diz mãe de um dos executados na torcida do Corinthians


Matheus Fonseca de Oliveira tinha 19 anos e foi um dos oito mortos na chacina na Zona Oeste de São Paulo. Rose Fonseca diz que foi morto enquanto preparava uma bandeira para o time

FLÁVIA TAVARES
24/04/2015 22h04 - Atualizado em 24/04/2015 22h19

PÉ-QUENTE Matheus Fonseca de Oliveira no Pacaembu, na primeira vez em que foi ao estádio ver o Timão jogar. O Corinthians venceu (Foto: arq. familiar)
Matheus ficou fora de si. Saiu berrando pelos corredores das duas casas que dividem o mesmo terreno, na periferia de Taboão da Serra, em São Paulo. “Acabou a luz! Não! Não”, gritava. Momentos antes da finalíssima da Libertadores, sonho até ali inalcançável de todo corintiano, a casa de Matheus ficara no escuro. Não bastava a falta de grana para ir aoPacaembu... Três minutos antes do apito inicial, fez-se a luz novamente. Ufa! Bem a tempo de Matheus ver os dois gols de Emerson Sheik que dariam o título inédito ao Corinthians. Ele urrou como o fanático que já tinha orgulho de ser. Naquela noite, Matheus era por si só o bando de loucosAquele 2012 seria mesmo especial. Em janeiro, aos 15 anos, Matheus fora pela primeira vez ao estádio ver seu time jogar. Era a final da Copa São Paulo de Juniores, contra o Fluminense – o Corinthians venceu. Seis meses depois, veio a Libertadores. Mais cinco meses, o Mundial de Clubes, no Japão. Tantas vitórias empolgaram Matheus a se filiar à Pavilhão 9uma das torcidas organizadas do time. No sábado, dia 18 de abril, Matheus foi executado com um tiro na cabeça, na sede da torcida organizada.
 
O franzino Matheus Fonseca de Oliveiranão admitia, mas cresceu são-paulino. Os tios, torcedores do tricolor paulista, davam uniformes ao primogênito de Rose Fonseca. Só que ela e o pai de Matheus simpatizavam com o Corinthians. Não torciam a valer, mas isso bastou para, aos 8 anos, o menino escolher o que o definiria dali para a frente: ser corintiano. Suportou a gozação dos tios e do irmão adolescente, Lucas, com quem dividia o quarto – sua metade era coberta de adesivos do Corinthians e da Pavilhão; a de Lucas, tinha três adesivos do São Paulo.Caladão, Matheus se soltava mesmo quando brincava com os cachorros da casa e com osirmãos pequenos, Isaac, Miguel e Daniel, para quem comprou um PlayStation 3 no ano passado. No inverno de 2013, um amigo do cursinho de informática o convidou para conhecer a sede da Pavilhão 9. A torcida foi fundada em 1990, em homenagem aos corintianos do Carandiru, antigo presídio de São Paulo. No logotipo da torcida estão os Irmãos Metralha, personagens-ladrões da Disney. Matheus foi à sede pela primeira vez vestindo uma camisa xadrez de flanela, o que lhe rendeu a alcunha de Quadrilha. “Olha o apelido...”, diz Rose, sorrindo com constrangimento.
Matheus encontrara na Pavilhão a sua turma. Arrumou companhia até de sobra para ir ao estádio. Matheus não bebia, não fumava, não tatuou o escudo do Corinthians na pele morena. Mas era dedicado à tarefa de torcer, de ser parte de uma trupe. “A vida dele era isso: serviço, casa e sede”, diz Rose. O Corinthians era seu vício. Enquanto alternava empregos de telemarketing e num depósito de supermercado, o garoto, agora com 19 anos, planejava entrar na faculdade. Queria ser designer gráfico e criar videogames. A Pavilhão 9 deu a ele a chance de exercitar seu talento para o desenho. Matheus foi escalado para trabalhar nas bandeiras da torcida. “Como a sede era longe, ele tinha de ir de ônibus, metrô, muitas vezes dormia lá. Outros garotos também. Eles dormiam em cima das bandeiras”, diz Rose. Com a Pavilhão, Matheus viajou para a Bahia, o Rio e até a Colômbia.
 
PAIXÃO No quarto de Matheus, Rose Fonseca lembra o dia a dia do filho. “A vida dele era isso: serviço, casa e sede” (Foto: Camila Fontana/ÉPOCA)
No dia 16 de abril, uma quinta-feira, Matheus foi trabalhar e, no fim do dia, mandou um recado para a mãe: iria direto para o jogo contra o San Lorenzo, no Itaquerão. De lá, dormiria na Pavilhão. Na sexta-feira, Matheus foi para o trabalho e de lá, novamente, para a Pavilhão. Queria deixar as bandeiras prontas para o clássico de domingo, contra o Palmeiras. “Já tinha me acostumado com a rotina dele. Nunca teve confusão”, diz Rose. No sábado, depois do trabalho, perto das 19 horas, Matheus avisou a Rose que seguiria novamente para a sede da torcida – as bandeiras ainda não estavam prontas. Prometeu voltar cedo. Quando chegou à Pavilhão, a festança que rolou o dia todo já estava no fim. O garoto perdeu o campeonato de futsal com meninos uniformizados, que começara às 9 horas, e o churrasco de carne Friboi, como os torcedores propagandeavam. Matheus foi lá só para trabalhar. Eram 22h20 quando ele enviou nova mensagem para a mãe, dizendo que teria de pernoitar lá mais uma vez. Rose estrilou: “Três dias seguidos? Trate de estar aqui amanhã muito cedo!”. Ele consentiu.
Cerca de 40 minutos mais tarde, três homens armados entraram no espaçoso galpão. Houve correria. Três rapazes conseguiram fugir por um portão de ferro. Os que restaramforam obrigados a se ajoelhar com as mãos na cabeça. Eram oito. Cada um foi alvejado com um tiro – somente um deles, o que a polícia acredita ser o único alvo do ataque, levou dois. A polícia descartou que se tratasse de briga entre torcidas rivais. Decretou o sigilo das investigações, que apontam para um acerto por disputa por pontos de tráfico de drogas ou para uma execução perpetrada por policiais militares.
Rose soube da morte do filho pelo Facebook. Seus amigos começaram a postar mensagens de pêsames. Ela achou que era apenas uma piada de mau gosto. Até o reconhecimento da foto das vítimas, já na manhã de domingo. Rose não reconheceu o mais velho de primeira. Precisou rever a imagem. “Prestei atenção nas sobrancelhas dele, que eram perfeitas.” Apesar da serenidade com que Rose fala, ela desaba a chorar quando narra esse momento. Os pequenos não têm comido. O avô de Matheus chora sem parar. Amigos de várias partes do país vieram ao enterro do Quadrilha.
O senso comum diria que Matheus estava no lugar errado, na hora errada. Equívoco. Matheus estava onde desejava estar: fazendo as bandeiras do time que amava.