Um ano depois, mulher arrastada por 800 m volta a andar de moto em SC


Em abril de 2014, Maristela Stringhini foi arrastada embaixo de carro.
Ela voltou ao mesmo evento de motociclismo em que estava naquele dia.

Joana CaldasDo G1 SC
Maristela foi com o noivo a evento de motociclismo em Rio do Sul (Foto: Toni Adriano/Divulgação)Maristela foi com o noivo a evento de motociclismo em Rio do Sul (Foto: Toni Adriano/Divulgação)
No dia 17 de abril, Maristela Stringhini voltou a andar de moto em Rio do Sul, no Vale do Itajaí. Há pouco mais de um ano, depois do mesmo evento, um acidente de trânsito mudou a vida dela. Em 2014, a moradora de Lages, na Serra, foi arrastada por cerca de 800 metros embaixo de uma picape.
O pior já passou. Voltar atrás, não volta. Vou ter que aprender a conviver com isso"
Maristela Stringhini
Agora, aos 41 anos, Maristela participou da edição 2015 do evento de motociclismo na cidade. Com um "aperto no coração", ela subiu pela primeira vez na garupa de uma moto, depois do que aconteceu em 13 de abril do ano passado.
Na madrugada daquele dia, ela estava em uma moto com o noivo, quando Julio César Leandro, de 21 anos, motorista de uma Saveiro, desviou subitamente do veículo deles e subiu em uma calçada.
De acordo com a denúncia oficial expedida pelo Ministério Público, o noivo de Maristela aproximou a moto do carro e repreendeu o motorista. Ofendido, o condutor do automóvel bateu na traseira da moto intencionalmente e casal caiu.
A picape passou por cima de Maristela e o capacete dela ficou preso na parte inferior do veículo. Ele a arrastou por cerca de 800 metros e a deixou mutilada. Ela perdeu os dois seios por causa da fricção com o assalto, teve queimaduras graves em várias partes do corpo, sofreu fratura exposta nos joelhos e em um dos braços; e em outras partes teve dilaceração da pele.
Maristela saiu do hospital de cadeiras de rodas e recebeu o carinho do público (Foto: Douglas Márcio da Silva/RBS TV)Maristela saiu do hospital no dia 15 de julho, após
93 dias (Foto: Douglas Márcio da Silva/RBS TV)
Ferimentos
Depois do que aconteceu, Maristela precisou ficar 93 dias no Hospital Regional Alto Vale, em Rio do Sul. Mesmo deixando a unidade, ela precisou voltar outras 55 vezes, destas, cinco para se consultar com o médico e as demais para realizar cirurgias.
Um ano depois, ela segue tratando da saúde. "Perdi 50% do movimento da mão esquerda, estou com várias manchas no corpo, várias cicatrizes", relata. As cirurgias não cessaram. Na próxima semana, a moradora de Lages, na Serra, irá a Rio do Sul novamente para tirar uma "cicatriz grossa do implante de pele". Ela também colocou próteses nos seios.
Os ferimentos a impedem de desenvolver algumas atividades. "Não posso fazer academia, ficar muito tempo em pé", explica. Por causa do acidente, Maristela diz que não pode mais trabalhar.
"Por causa do implante de pele, eu não posso erguer os braços. Com a restrição do movimento da mão, o laudo dos médicos é de que eu não estou apta a trabalhar. Tô em casa, tento levar uma vida normal. Mas preciso de empregada, não consigo segurar a louça direito para lavar", conta.
Maristela fala sempre o apoio que recebe da família (Foto: Maristela Stringhini/Arquivo pessoal)Maristela fala sempre o apoio que recebe da
família (Foto: Maristela Stringhini/Arquivo pessoal)
Alto astral
Apesar das dificuldades, ela procura o lado positivo da situação. "Só tenho que agradecer a Deus e ao meu médico por eu estar viva". Essa é uma característica que Maristela sempre apresentou, desde o tempo em que estava no hospital.
"Eu tento me autoajudar. Faz um ano que não consigo dormir. Não adianta, tu deita, tu pensa.  Não é fácil superar. Tô tentando não tomar nenhum remédio, tô tentando partir para o alto astral. Tu te olhas no espelho e vê que o corpo não é mais o mesmo", desabafa.
Maristela sempre cita a importância do apoio da família no processo de recuperação. "Tenho meu marido do meu lado que sempre me apoia, a minha família, isso é tudo. Olho para a minha filha, não tem como se deixar abater. O pior já passou. Voltar atrás, não volta. Vou ter que aprender a conviver com isso".
Novos amigos
Maristela destaca que, nesse período, passou a receber o afeto vindo de pessoas que ela sequer conhecia. "Do Brasil todo, Rio do Sul e região. Eu digo que se não fosse pela corrente de oração que eles fizeram, eu não teria vencido. Eu devo um pouquinho da minha vida para cada um. Até hoje, é surpreendente o carinho que as pessoas têm comigo, me têm como uma referência de batalha, de superação mesmo", orgulha-se.
"Fiz muita amizade, muita mesmo", conta. Algumas dessas pessoas, ela encontrou pessoalmente. Outras conversam com ela com frequência nas redes sociais. "Me chamam direto para perguntar como eu estou".
Maristela julgou a edição de 2015 a melhor do evento de motociclismo (Foto: Maristela Stringhini/Arquivo pessoal)Maristela julgou a edição de 2015 a melhor do evento de motociclismo (Foto: Maristela Stringhini/Arquivo pessoal)
Encontro de motociclistas
Na edição 2015 do evento de motociclismo, o carinho das pessoas não foi diferente. "Foi incrível a receptividade do pessoal de Rio do Sul. Teve gente que foi só para me ver, para me dar um abraço", recorda, animada.
A viagem até a cidade do Vale do Itajaí não foi fácil. "Um dia antes, fiquei emocionada, chorei. Como o acidente não foi provocado por nós, eu pensei comigo que eu tenho que enfrentar isso. É o hobbie nosso, o único hobbie". Ela foi para o encontro, mas não passou na rua onde tudo aconteceu.
"As coisas acontecem, mas não acontecem à toa. Se Deus me deixou viva, eu sei que tenho alguma coisa na Terra para cumprir. Minha missão não acabou", reforça.

De acordo com o advogado de Maristela, Luiz Vicente de Medeiros, em seguida, a defesa do réu entrou com recurso pedindo o afastamento dessas qualificadoras.
Processo
O processo na Justiça envolvendo Maristela e o noivo e o réu, Julio César Leandro - motorista do automóvel -, continua. Em 15 de julho de 2014, a Vara Criminal de Rio do Sul determinou que Leandro iria a júri popular por homicídio qualificado. Ele seria submetido a julgamento pela tentativa de homicídio qualificado, por motivo fútil, cruel e sem direito a defesa da vítima.
Em 17 de março deste ano, a Justiça decidiu favoravelmente, e o réu será julgado somente por homicídio por meio de júri popular em Rio do Sul. Com as qualificadoras, Leandro poderia ter pena de 12 a 30 anos. Sem, a condenação é entre 6 e 20 anos.
Em 23 de abril, a defesa de Leandro entrou com um embargo declaratório, que pede mais detalhes e uma revisão da decisão de 17 de março. O G1 tentou contato com o advogado de Julio César Leandro, mas não obteve êxito.