Em júri no Rio, Beira-Mar diz que não ordenou mortes na rebelião em 2002


Testemunha, ex-rival poupado de morrer disse depor para 'pagar dívida'.
Júri com grande esquema de segurança teve tumulto na entrada; veja vídeo.

Marcelo Elizardo e Daniel SilveiraDo G1 Rio
Beira-Mar se declarou8 inocente no julgamento (Foto: Brunno Dantas / TJ-RJ)Beira-Mar se declarou inocente no julgamento (Foto: Brunno Dantas / TJ-RJ)
Acusado de ter liderado uma guerra de facções, em 2002, dentro do presídio de segurança máxima Bangu I, no Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste do Rio, Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, disse durante julgamento no Fórum do Rio, nesta quarta-feira (13), que é inocente neste processo. O réu afirmou que não ordenou as quatro mortes de traficantes rivais, ocorridas durante a rebelião. assista ao vídeo abaixo
“Eu cometi vários crimes. Nesse, eu sou inocente”, defendeu-se.
Segundo a acusação, Beira-Mar teria conseguido abrir caminho dentro do presídio para invadir a ala. O réu negou e disse que ouviu a confusão de longe e foi chamado depois pelos agentes penitenciários para "negociar" a paz dentro da cadeia, por ser considerado "tranquilo".
Eu cometi vários crimes. Nesse, eu sou inocente"
Fernandinho Beira-Mar
Ainda segundo o réu, ele ficava na ala A,junto com uma facção que também era distribuída pela ala C, de onde teria partido o ataque executado por 20 criminosos. Os quatro mortos, incluindo o traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, eram da segunda quadrilha, situada na ala D.
"O problema era entre as galerias C e D. Ouvimos tiros e pensamos que era fuga. Sabíamos que tinham tomado a cadeia. Nisso, todos correram. Só entrei na galeria depois do fato. Os inspetores chegaram a me pedir ajuda porque sabiam que eu era um cara tranquilo. Nem cheguei a entrar e o Celsinho [da Vila Vintém] já estava saindo [da galeria]", contou.
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Fernandinho Beira-Mar manda beijo para familiares no tribunal (Foto: Fernando Souza/ Agência O Dia / Estadão Conteúdo)Beira-Mar mandou beijo para parentes no tribunal (Foto: Fernando Souza/ Agência O Dia / Estadão Conteúdo)
Fernandinho Beira-Mar chega de helicóptero ao fórum (Foto: SEVERINO SILVA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO)Beira-Mar chegou de helicóptero ao fórum (Foto: SEVERINO SILVA/AGÊNCIA O DIA/ESTADÃO CONTEÚDO)
O traficante Fernandinho Beira Mar é julgado em Júri Popular no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no Centro, por ordenar a morte de quatro líderes do tráfico carioca na rebelião ocorrida no presídio Bangu 1 em 11 de setembro de 2002 (Foto: Erbs Jr./Frame/Estadão Conteúdo)Traficante disse ser 'autônomo' no tráfico (Foto: Erbs Jr./Frame/Estadão Conteúdo)
Testemunha é ex-rival
Celso Luiz Rodrigues, o Celsinho, então traficante de uma facção dissidente à de Beira-Mar, foi interrogado como testemunha de defesa, antes de o réu ser chamado. Ao júri, disse que tentou se proteger do ataque dos presos e que o Beira-Mar não estava junto. Ao ser encontrado, ouviu de traficantes rivais que não seria assassinado.
Segurança máxima é brincadeira, né?"
Celsinho da
Vila Vintém,
sobre Bangu 1
“Vim aqui, como testemunha dele, para pagar a dívida, por terem me deixado vivo”, afirmou, sob olhar e sinais de concordância de Beira-Mar.
Além de Uê, foram mortos na rebelião Carlos Alberto da Costa, o Robertinho do Adeus; Wanderlei Soares, o Orelha, e Elpídio Rodrigues Sabino, o Pidi.
Celsinho ironizou a qualidade da penitenciária durante uma das perguntas, em que Bangu 1 foi citado como "presídio de segurança máxima". "Segurança máxima é brincadeira, né?”, debochou, provocando risos.
Traficante 'autônomo'
Beira-Mar, que sempre foi apontado como líder da facção que comandou a rebelião, afirmou ao júri não pertencer a facção alguma. No depoimento, disse que era "autônomo" e que vendia drogas para várias quadrilhas, inclusive para a que foi atacada.
Sempre que a promotoria enfatizava que ele orquestrou a rebelião, ele balançava a cabeça negativamente de forma enfática. Com semblante sempre compenetrado, ele acompanhou atentamente cada fala da acusação. Por vezes, consultou o código penal, para conferir artigos citados pela acusação.
Júri de 5 mulheres e 2 homens
Já condenado a cerca de 200 anos de prisão por crimes diversos, o traficante voltou ao banco dos réus nesta quarta para enfrentar o júri popular composto por cinco mulheres e dois homens.
A sessão começou com mais de duas horas de atraso, às 15h20, devido à ausência de uma das testemunhas de defesa, que acabou dispensada. Outras oito testemunhas, todas de acusação, foram dispensadas pelo Ministério Público.
Por volta das 13h, horário previsto para o início da sessão, houve tumulto devido ao grande número de pessoas que desejava entrar no tribunal. Estagiários de direito, advogados, jornalistas e parentes do réu – para os quais Beira-Mar mandou beijos – estavam entre os que queriam acompanhar o julgamento (veja no vídeo acima).

Segurança custou R$ 120 mil
O traficante chegou ao Fórum ainda pela manhã, às 10h15, de helicóptero
. Por motivos de segurança, o Departamento Penitenciário Nacional (Depen) e as polícias Federal e Militar não divulgaram o efetivo usado no esquema, que custou R$ 120 mil.
Em nota, o Depen informou que "não se pronuncia sobre questões referentes a operações antes do término da missão". Dentro do tribunal ficaram dois PMs e cinco agentes do Depen.
Celsinho da Vila Vintém provocou risos da plateia no jugamento (Foto: Brunno Dantas / TJ-RJ)Celsinho da Vila Vintém provocou risos da plateia no jugamento (Foto: Brunno Dantas / TJ-RJ)
Traficante Fernandinho Beira-Mar dentro do tribunal (Foto: Brunno Dantas / TJ-RJ)Traficante Fernandinho Beira-Mar dentro do tribunal (Foto: Brunno Dantas / TJ-RJ)
Na abertura da sessão, foram sorteados sete entre 25 jurados. Não podem participar do mesmo conselho de sentença marido e mulher, ascendentes e descendentes, sogro e sogra, genro e nora, cunhados, tio e sobrinho, padrasto, madrasta e enteado, bem como o jurado que for parente até 3º grau do juiz, do representante do Ministério Público e do defensor público. O MP teve direito a três recusas no sorteio de jurados.