Embaixadora brasileira no Nepal: “Vi muita gente chorando, uma cena horrível”



Maria Teresa Pessôa narra como foram os momentos de tensão logo depois do terremoto de 25 de abril que devastou o país

MARIA TERESA PESSÔA | DE KATMANDU EM DEPOIMENTO A ARIANE FREITAS
13/05/2015 - 08h01 - Atualizado 13/05/2015 08h01
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Katmandu, Nepal.
25 de abril de 2015.

No sábado, fui até a embaixada da Austrália para uma cerimônia com café da manhã em comemoração pelo 100º aniversário da Batalha de Gallipoli, na Primeira Guerra Mundial. Enquanto estive lá, conversei com algumas pessoas sobre feiras de fazendeiros que existem na região e são sempre procuradas por turistas. Percebi que depois de quase dois meses aqui no Nepal eu ainda não conhecia o local e, como estava de folga, resolvi passear por lá depois da cerimônia. Chegando à feira, dei uma volta, parei para tomar um café, comprei algumas coisas e fui até algumas lojas folhear livros. Próximo dali existe um lugar, também bem turístico, chamado Tamel, onde é possível encontrar ótimas livrarias. Essa região parece um labirinto, com várias ruelas pequenas. Como eu estava com vontade de caminhar, pedi ao motorista que me esperasse em um lugar chamado Jardim dos Sonhos. Fui andando pela região e resolvi entrar na Rua Mandala, onde há uma série de lojas que eu ainda não havia explorado. Nessa rua, encontrei uma livraria chinesa, muito bonita, com livros de arte, onde fiquei por algum tempo.
Quando saí da livraria, senti um golpe, um baque, não foi exatamente um tremor. Na hora eu não entendi o que era, mas vi todo mundo correndo, e foi então que eu entendi que tinha sido um terremoto. Eu já sabia que poderia haver um grande terremoto aqui no Nepal. A embaixada dos Estados Unidos já havia nos avisado um tempo atrás que isso poderia acontecer, sem contar que estamos em uma área propensa a terremotos. Na hora, a única coisa que me veio à cabeça foi: “Vai passar logo”. Eume descobri uma otimista no meio de um terremoto. Depois desse primeiro tremor, todo mundo ficou meio atordoado, mas ainda não tínhamos noção da extensão dos danos causados. Foi apenas quando comecei a sair dessas ruelas que vi pedaços de paredes destruídas e o chão meio envergado e rachado ao meio. Resolvi voltar, por uma rua maior, ao local onde nosso carro estava estacionado. Foi nesse caminho que comecei a ver vidros quebrados, postes caídos em cima de carros, gente chorando, uma cena horrível. Quando cheguei ao estacionamento, meu motorista não estava lá e foi aí que comecei a ficar apavorada. Tentei ligar para ele, mas as linhas telefônicas não estavam funcionando, não tínhamos rede.
 
MARIA TERESA PESSÔA É embaixadora do Brasil no Nepal desde  10 de março de 2015. Ela se formou no Instituto Rio Branco em 1980 e já serviu nas embaixadas da Costa do Marfim, Espanha, Indonésia, Estados Unidos, Canadá e Índia. Ela é integrante da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas e foi uma das representantes do Brasil na Rio+20, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável realizada em 2012. (Foto: Arquivo Pessoal)
No Jardim dos Sonhos há um café chamado Kaiser Café, que é administrado por um hotel construído em estilo nepalês com pedaços de templos antigos. Como já havia estado nesse café algumas outras vezes, o garçom me reconheceu e disse para eu entrar e ficar no jardim, pois era mais seguro. Havia bastante gente lá e fiquei conversando com uma moça chinesa e um estudante americano do Estado do Colorado. Depois disso, vieram mais três abalos. Ao final deles, consegui sinal de telefone por um tempo e recebi algumas ligações. A primeira foi de um colega de Mumbai, onde fui cônsul-geral antes de vir para Katmandu. Ele dizia que o embaixador em Nova Délhi estava preocupado comigo, pois eles já sabiam do terremoto. Ele foi sentido até em Nova Délhi, porém com menor intensidade. A ligação seguinte que recebi foi do meu motorista. Ele também estava a minha procura. Pedi a ele que se abrigasse no mesmo jardim, onde era mais seguro para que esperássemos. O terremoto aconteceu às 11h56 (horário local) e ficamos lá até aproximadamente as 14 horas, quando os abalos deram uma estabilizada e pudemos ir para casa.
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No caminho para casa realmente percebemos a extensão do terremoto. Era impressionante. Paredes caídas e todo mundo apavorado no meio dos escombros. Em casa os danos não foram tão grandes. Algumas coisas estavam caídas, livros fora do lugar, gavetas todas abertas, as estantes haviam “andado” meio metro – mas, de um modo geral, estava tudo bem. O vice-cônsul veio até a residência averiguar se estava tudo bem, e, enquanto ele ia aos hotéis da região tentar acessar a internet, eu e a família dele ficamos sentadas no gramado da residência. Nessa hora, por volta das 16 ou 17 horas, já estávamos sem nenhuma forma de comunicação. Nem celular, nem internet, absolutamente nada, e ele precisava começar a divulgar o ocorrido, falar com oItamaraty e planejar nossa estratégia para o dia seguinte, quando abriríamos a embaixada. No dia do terremoto não havia condição de abrir nada. Foram mais ou menos 200 abalos sísmicos só naquele dia e até hoje (quarta-feira) já ocorreram aproximadamente 600. Realmente é horrível e muito forte presenciar tal acontecimento, mas, felizmente, não tivemos notícias de nenhuma vítima brasileira.

Eu já tinha passado por dois pequenos tremores, um na Indonésia e um no Canadá. Na Indonésia foi um tremor bem fraco, no Canadá um pouco mais forte. No entanto, nenhum dos dois se compara ao terremoto que aconteceu aqui no Nepal. Nem em intensidade nem na quantidade de abalos sísmicos que ocorreram depois.
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No dia seguinte ao terremoto, domingo, abrimos a embaixada para receber os brasileiros. Os primeiros a chegar estavam em um grupo que havia dormido ao ar livre, em um parque na região central de Katmandu onde havia uma concentração muito grande de pessoas nesse primeiro dia. A recomendação era essa, ficar ao ar livre. Dentro de casa, se houver um abalo sério, pode haver desabamento. Levei esse grupo de brasileiros para tomar o café da manhã na minha casa, pois não estávamos preparados e não tínhamos alimentos na chancelaria, apenas café solúvel, água e chá.
 
No caminho para casa, percebemos a extensão do terremoto. Era impressionante. PAredes caídas e todo mundo apavorado no meio dos escombros (Foto: Danish Siddiqui/Reuters)
A embaixada brasileira no Nepal é muito nova, tem apenas três anos. Então, é preciso entender que ainda não temos todo o preparo necessário. É difícil, também,  deixar preparado um kit para atender um número desconhecido de pessoas em uma situação como essa. Nós ainda não temos toda a experiência necessária e estamos montando nossas estruturas locais.
Houve o caso de um brasileiro que disse não ter recebido atendimento aqui na embaixada brasileira. Ele disse que não lhe serviram nem um copo de água. As pessoas precisam entender a extensão da tragédia. Nosso auxiliar perdeu a casa no terremoto, só voltou ao trabalho na terça-­feira. Ele está sem casa, como boa parte dos 8 milhões de pessoas que foram afetadas pelo terremoto, sendo que o Nepal tem 27 milhões de habitantes. Ou seja, o terremoto afetou um terço da população. Então, nós realmente não estávamos servindo ninguém, nós não tínhamos um auxiliar ali com uma bandeja, servindo café e água para todo mundo. Mas a copa estava aberta para quem quisesse entrar e se servir.
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A porta da embaixada, que normalmente fica fechada, estava aberta. Comida nós realmente não tínhamos. Nós não costumamos ter comida na chancelaria. Aliás, nem na residência. Embaixador não tem direito a receber comida do governo. Por isso, não tenho um estoque de comida nem em casa, nem na embaixada. O que eu posso fazer é compartilhar o que tenho e convidar as pessoas para vir comer em minha casa. Mas nossa prioridade no momento era atender as pessoas que estavam nos procurando para tentar entrar em contato com seus familiares no Brasil e para remarcar suas passagens de avião, e estamos fazendo isso até hoje. Apesar de toda essa tragédia, o engajamento brasileiro na questão da ajuda humanitária me deixou realmente impressionada. Há muitos brasileiros que vivem aqui no Nepal que se ofereceram para ajudar. Esse lado da situação, esse engajamento da sociedade civil brasileira, é um aspecto muito positivo que precisa ser mostrado e destacado ao mundo.