Exclusivo: MPF denuncia operador que recebeu US$ 10 mi para distribuir ao PMDB


Antes mesmo da Operação Lava Jato ser realizada, em março de 2014, ÉPOCA revelou a atuação do lobista João Augusto Henriques no esquema

FILIPE COUTINHO DIEGO ESCOSTEGUY
06/08/2015 - 16h28 - Atualizado 06/08/2015 16h28
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A força-tarefa da Operação Lava Jato denunciou o núcleo responsável por colher e distribuir propina à bancada do PMDB na Câmara. O pedágio político era cobrado na área internacional da Petrobras, a partir de 2008, no segundo mandato de Lula. Entre os denunciados estão o ex-diretor Jorge Zelada e o lobista João Augusto Henriques, acusado de entregar US$ 10 milhões a políticos do PMDB.
FALOU, SIM O lobista João Augusto Henriques na conversa com ÉPOCA. Ele tentou negar o que dissera num momento de sinceridade, mas foi desmentido pelas gravações (Foto: Reprodução)
A denúncia foi oferecida pelos procuradores que atuam na primeira instância, em Curitiba. Por isso, nenhum integrante do PMDB com foro privilegiado foi citado. De acordo com os investigadores, a propina é resultado de um contrato irregular assinado por Zelada na Petrobras, no valor de US$ 1,8 bilhão. Trata-se da contratação do afretamento do navio-sonda da empresa Vantage Drilling. O navio era dos chineses da TMT e foi alugado à Vantage.
Assim como em outros casos, os operadores simulavam contratos de consultoria para levantar a propina em forma de comissão e, depois, remetiam o dinheiro ao exterior. De acordo com a investigação, o acerto era de US$ 31 milhões – metade para Zelada e seus operadores; e outra metade para João Augusto e deputados do PMDB.
“O pagamento de vantagem indevida destinada ao partido PMDB ocorreu por intermédio do lobista João Augusto Henriques mediante um segundo contrato de Comission Agreement também no valor de U$ 15.500.000,00, que foi assinado no mesmo ano do primeiro, entre a sociedade Valencia Drilling, empresa subsidiária do grupo TMT e uma offshore indicada por João Henriques”, diz o texto da denúncia, obtido por ÉPOCA.
Denuncia Jorge Zelada  (Foto: Reprodução)
Antes mesmo de a Operação Lava Jato ser realizada em março do ano passado, ÉPOCA já havia revelado o papel de João Henriques no esquema, atuando em favor do PMDB. “Repassei US$ 10 milhões ao PMDB”, disse o lobista à reportagem publicada em agosto de 2013.
No caso de Zelada, a propina era dividida com os operadores Raul Shmidt e Hamylton Padilha, além de Eduardo Musa, subordinado do diretor internacional da Petrobras. “Pelo acordo inicial, do valor de US$ 15.500.000,00 que seria recebido por Hamylton Padilha, metade ficaria com o próprio Padilha como ‘comissão’, utilizando parte destes valores para pagamento da propina a Eduardo Musa. A metade restante deveria ser repassados a Raul Schmidt, que utilizaria parte dos valores para o pagamento da vantagem indevida destinada a Jorge Zelada”.
Nos dois casos, contudo, houve um calote na última parcela da propina paga pela TMT e, dos US$ 31 milhões, cerca de US$ 20 milhões – US$ 10 milhões para cada grupo. O valor dado a João Henriques, segundo a denúncia, é o mesmo que ele disse a ter recebido, conforme reportagem de ÉPOCA.
No esquema Petrobras, João Henriques é um dos caminhos para desvendar a atuação do PMDB na diretoria internacional. Raul Shmidt, por sua vez, operava também para os ex-diretores Renato Duque, ligado ao PT, e Nestor Cerveró, antecessor de Zelada na diretoria internacional. A investigação contou ainda com adelação premiada de Hamylton Padilha, maior lobista da Petrobras, conforme revelado por ÉPOCA. Ele não só contou detalhes, mas também apresentou documentos, contas no exterior e contratos. Assim como Schmidt, Padilha também atuou com Cerveró. Além do caso da sonda Vantage, ele delatou o esquema de propina envolvendo uma sonda americana, que também será alvo de denúncia do Ministério Público Federal.
“A partir da colaboração premiada de Hamylton Padilha, elucidou-se a existência de um grande esquema de corrupção e lavagem de capitais envolvendo executivos de multinacionais, lobistas e operadores financeiros para o pagamento de propina a agentes públicos corruptos da Petrobras para viabilizar a contratação das empresas americanas Pride/Ensco e Vantagem pela Petrobras para o afretamento de outros dois navios-sonda”, escreveram os procuradores.
Na delação premiada, Padilha contou de reuniões em Nova Iorque e no Rio, no hotel Copacabana Palace, para tratar da propina do caso Vantage. Um dos encontros aconteceu no fim de novembro de 2008, no Hotel Four Seasons, entre Padilha e o chinês Nobu Su, responsável por pagar a propina em nome da empresa TMT, dona do navio-sonda. Com o acerto da propina, Nobu Su veio ao Rio. O objetivo era Padilha apresentar o lobista João Henriques. Em outras palavras: garantir que o dinheiro chegasse ao PMDB. Na delação, Padilha relatou reuniões no fim de dezembro, no Copacabana Palace. A investigação foi além das palavras do delator. Os registros do hotel mostram, de fato, que o chinês Nobu Su estava lá hospedado.
Procurado, o advogado de Jorge Zelada, Renato de Moraes, negou as acusações do MPF. “A defesa nega qualquer recebimento de vantagem ilícita na contratação da sonda objeto da denúncia”. A assessoria de Raul Schmidt não respondeu as perguntas até a publicação deste texto. A reportagem não localizou João Henriques e Nobu Su. Eduardo Musa não retornou as ligações da reportagem.
Os procuradores ofereceram denúncia pelos seguintes crimes:

João Augusto Henriques
Corrupção passiva
Jorge Zelada
Corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas

Hamylton Padilha (lobista) e Nobu su (empresário)
Corrupção ativa e lavagem de dinheiro

Eduardo Musa (funcionário subordinado a Zelada) e Raul Schmidt(operador)
Corrupção passiva e lavagem de dinheiro