Em delação, Baiano diz que operou com Bumlai para manter Cerveró na Petrobras


Em um dos depoimentos de sua delação premiada na Lava Jato, o lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano, afirmou que, na tentativa de manter Nestor Cerveró no cargo de diretor da área Internacional da Petrobras – entre 2007 e 2008 , pediu ao pecuarista José Carlos Bumlai que "intercedesse junto à Presidência da República".
Bumlai foi preso nesta terça-feira (24) pela Polícia Federal na Operação Lava Jato por suspeita de fazer tráfico de influência. Ele é amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e, supostamente, tinha acesso livre ao Palácio do Planalto durante os oito anos em que o petista comandou o país. O depoimento de Baiano foi tornado pública nesta terça-feira, após a PF ter deflagrado a 21ª fase da operação. 
Na versão de Baiano, Bumlai contou que “falou com o [então] presidente Lula, mas este informou que não poderia interferir no assunto, pois havia realmente prometido a diretoria internacional da Petrobras à bancada mineira do PMDB na Câmara dos Deputados”. Baiano diz ainda que, "seguindo a orientação fornecida por Lula, Bumlai procurou Michel Temer para tratar do assunto”.
Atual vice-presidente da República, à época Temer exercia a presidência do PMDB. Segundo o lobista, Bumlai chegou a fazer uma reunião com Michel Temer e Cerveró para tratar do assunto, mas disse que, na ocasião, Temer afirmou que "não poderia contrariar a bancada mineira do PMDB”. O PMDB nega a reunião com a presença de Bumlai, mas confirma o encontro com Cerveró (leia mais abaixo).
Baiano afirma que conversou também com um advogado (sem citar o nome) amigo do falecido Fernando Diniz, então líder da bancada mineira do PMDB na Câmara dos Deputados. “Que, então, o depoente sugeriu que Nestor Cerveró fosse mantido no cargo, mediante ajuda à bancada mineira do PMDB na Câmara dos Deputados”. Neste momento, Baiano afirma que "o advogado solicitou o pagamento de aproximadamente R$ 1 milhão mensais [pelo apoio]”.
O lobista diz ter comentado com Bumlai sobre o suposto pedido de R$ 1 milhão mensais, e que o empresário “não demonstrou surpresa”. O depoimento ainda explica que Cerveró acabou nomeado para o cargo de diretor da BR distribuidora. Já a diretoria internacional foi assumida por Jorge Zelada, a pedido da bancada mineira, até o ano de 2012.
Cerveró e Zelada foram presos em outras fases da Lava Jato, suspeitos de envolvimento no esquema de corrupção na Petrobras investigado pela operação. Cerveró foi condenado por corrupção passiva e lavagemde dinheiro por 12 anos de prisão. Zelada é réu na Justiça Federal do Paraná. Baiano cumpre prisão domiciliar, benefício obtido após acordo de delação premiada. 
Procurado pelo blog, a assessoria de imprensa da Vice-Presidência da República afirmou que quem responderia pelas indagações seria o PMDB. O partido explicou que, ao vice-presidente, "não constava à época nenhuma informação de transação irregular nem contra o Cerveró, nem contra a Petrobras”. 
Segundo a assessoria da legenda, “após a eleição de 2006, o presidente Lula quis uma relação institucional com o PMDB e fez uma sugestão de participação no governo". “Alguns cargos foram oferecidos, entre eles a diretoria internacional da Petrobras, destinada ao PMDB de Minas, época em que o presidente do PMDB era o falecido deputado Fernando Diniz”. 
Ao blog, o PMDB explicou ainda que "Cerveró se reuniu com o vice-presidente Michel Temer, em São Paulo, sem a presença de Bumlai, pedindo apoio para ficar na Petrobras, mas Temer afirmou que realmente havia uma reivindicação do PMDB de Minas e que não poderia fazer nada em relação a isso". Com isso, houve a substituição de Cerveró por Zelada. 
O Instituto Lula afirmou que não iria se pronunciar sobre as afirmações de Baiano. O juiz Sérgio Moro, responsável pela Lava Jato na primeira instância, afirmou que “não há nenhuma prova de que o ex-presidente estivesse de fato envolvido nesses ilícitos”. 

Bumlai já contestou declarações de delatores da Lava Jato de que se beneficiou da proximidade com Lula. Nesta terça-feira (24), o advogado Arnaldo Malheiros Filho, que defende o empresário e pecuarista, disse que a prisão do cliente foi uma surpresa porque Bumlai estava em Brasília para atender convocação da CPI do BNDES. A defesa afirmou que ainda estava se inteirando dos fatos que motivaram a prisão.