Apaixonado por futebol, André Esteves enfrentou dificuldades na infância


s
PUBLICIDADE
A sala de estar não era atraente. No ambiente apertado tinha até um sofá rasgado. O salário oferecido era menor do que a bolsa paga pela Universidade Federal do Rio de Janeiro ao então estudante de matemática.
André Esteves, 21 à época, ainda assim decidiu apostar no estágio no banco Pactual. À mãe, Tânia, não parava de falar que os futuros chefes prometiam premiações para quem se destacasse.
Ouviu como resposta uma pergunta: "Filho, você vai confiar em banqueiro?".
Vinte e seis anos depois, o agora bilionário —e banqueiro— Esteves foi preso sob suspeita de oferecer ajuda para um plano de fuga de Nestor Cerveró, ex-diretor da Área Internacional da Petrobras.
Na época em que chegou ao Pactual, o país atravessava tempos de hiperinflação, tormento para famílias de classe média como a dos Esteves, que vivam no bairro da Tijuca, zona norte do Rio.
A vida pessoal também ofereceu percalços. Quando criança, André viu o pai sair de casa e se afastar da família após se apaixonar por Érica Pertuis, com quem se casou e teve dois filhos.
IOGURTE RACIONADO
Para sustentar André, Tânia, professora da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), dobrou a carga horária. Pouco via o menino durante a semana.
Nesse período, a compra de iogurtes, que ele adora, era controlada. Houve Natal em que o garoto nem ganhou presentes. A festa se resumia a um jantar ao lado da mãe e da avó Abelinge.
Começavam aí duas das grandes paixões do futuro banqueiro: a leitura e o time do Fluminense.
Adolescente, viu o clube do coração ser tricampeão carioca. Quando ia ao Maracanã, era levado pelo pai de um vizinho, torcedor do rival Flamengo. Passava o jogo com outro colega ou sozinho na arquibancada e só reencontrava seu acompanhante no fim do jogo.
Em 1987, aos 19 anos, André Esteves passou no vestibular para matemática, na UFRJ. A vida começou a tomar novo rumo a partir daí.
No Instituto de Matemática, na Ilha do Fundão, decidiu-se pelo ramo da informática, curso que hoje é chamado de ciência de computação.
Nessa época, conheceu também Lilian Marques, colega de turma que se tornaria a sua namorada. Os passeios com a namorada se limitavam a lanches no McDonald's em dias festivos, como aniversários de namoro. Mesmo assim não era sempre que se davam esse luxo.
De resto, o casal se via na faculdade ou na casa de um deles. Lilian e André acabaram se casando. Têm três filhos, hoje adolescentes.
BOAS NOTAS E BOM PAPO
As notas altas são uma constante do menino tijucano na faculdade. Em seu boletim apenas uma reprovação nos cinco anos de curso.
"Numa análise fria, levando em conta apenas as notas, ele era um bom aluno. Acima da média", diz a professora Walci Santos, diretora do Instituto de Matemática.
Os colegas de turma viam no estudante aplicado também um bom papo. Sempre bem articulado, tinha opinião sobre todos os temas.
André Esteves logo conseguiu uma bolsa e passou a trabalhar na universidade, o que lhe garantia R$ 800 por mês, em valores atualizados.
O convívio com o pai voltava aos poucos, facilitado pela aproximação com os dois meios-irmãos, Flávio e Júlio.
"Sou meia-mãe dele. Não tem essa de madrasta. Somos uma família e estamos sofrendo muito com este momento", afirma Érica Pertuis Esteves, que administra com os filhos postos de gasolina e lava jatos no centro e na zona norte do Rio.
Um anúncio no jornal, em 1989, chamou a atenção do estudante: o banco Pactual selecionava jovens. Na entrevista foi surpreendido com a proposta de R$ 600, menos do que recebia na UFRJ.
Ao conhecer o Pactual, dizia que o banco era como se fosse "uma Disneylândia". Aos amigos Esteves repetia que seu único sonho era conseguir um emprego.
ESFORÇO E SORTE
Viu o sonho se tornar realidade ao ser contratado como programador de sistemas. Um traço logo chamou a atenção dos colegas: o estudante fascinado por computador era também obstinado.
"Ele estudava uma noite inteira para entender um assunto. Não era apenas o mais brilhante dessa turma de estagiários. Era mais brilhante até que o chefe que o contratou", recorda-se o empresário Luiz Cezar Fernandes, então sócio do Pactual.
Começou desde essa época a espalhar o lema de "que quanto mais se trabalha mais a sorte aumenta", que repetiu em todas as palestras que fez antes de ser preso.
Em abril de 1992, Esteves se formou com uma monografia em que descreveu os trabalhos do gerente de informática. Faltavam oito meses para que o presidente Fernando Collor decidisse não responder ao processo de impeachment e deixasse a Presidência da República.
Um dia, ganhou uma oportunidade na mesa de operações. Nos 13 anos seguintes, trilhou o caminho que o levou a um dos principais sócios do banco. Aos 37 anos, em 2005, entrou pela primeira vez para a lista dos bilionários do Brasil.
O grande salto do banqueiro veio em 2009, quando ele e um grupo de sócios recompraram por menos de US$ 2,5 bilhões o banco que tinham vendido três anos antes ao UBS, por US$ 3,1 bilhões.
DE VOLTA AO JOGO
Em poucos dias, o banco foi reaberto com o nome de BTG Pactual. No mercado, a sigla BTG, oficialmente Banking and Trading Group, é traduzida como "back to the game" (de volta ao jogo).
Esteves sempre negou essa versão, mas quem o conhece diz que ele não é de desistir após uma derrota.
Preso, sem prazo para ser libertado, no presídio de Bangu 8, no Rio, ele aguarda as tentativas de seus advogados de defesa para conseguir um habeas corpus que o tire da cadeia antes do Natal.
As imagens do banqueiro preso surpreenderam Valdemar Pereira da Silva, 60, contratado há 38 anos por Abelinge, avó de Esteves, para trabalhar no edifício Stella Gama, onde o garoto morou por toda a infância.
"Aquele menino não fazia bagunça, não gritava, não quebrava nada. Ele não dava trabalho para a avó. Agora, olha isso", diz o porteiro.
Folha procurou a família de André Esteves em telefonemas ou por mensagens. A FSB, assessoria de imprensa contratada pelos parentes do banqueiro, telefonou duas vezes para a reportagem e informou que, neste momento, ninguém iria se pronunciar.
Tânia está aposentada. Alcides Esteves, pai do banqueiro, morreu em um acidente de carro, em 2011. Abelinge não foi localizada