Menino de 2 anos deixa hospital após nove cirurgias


Wesley nasceu com problema raro no coração. Médicos e enfermeiros se emocionaram na despedida do menino.

Vinte e dois de abril foi um dia especial. Dia de deixar o hospital, deixar para trás tantas lembranças difíceis. “Eu sempre falei: ‘eu vou sair daqui com meu filho nos braços’”, diz Elis Costa Macedo, a mãe de Wesley.
Em 15 de abril de 2013, o Wesley nasceu com quase três quilos, 45 centímetros e um problema de saúde raro: síndrome de hipoplasia do coração esquerdo.
Uma parte do coração do Wesley, o ventrículo esquerdo, não se desenvolveu como deveria e ficou praticamente sem função. O ventrículo esquerdo é a grande bomba do coração. Recebe o sangue que vem oxigenado dos pulmões e bombeia para todo o corpo.
O problema foi identificado quando o Wesley ainda estava na barriga da mãe. Começava a corrida para salvar o filho. Com só 12 horas de vida, o Wesley passou por uma primeira cirurgia para ajudar na circulação de sangue no coração. “Eu fui ver o Wesley praticamente cinco dias depois que ele tinha nascido”, lembra Elis. No álbum de fotos do Wesley, está o registro da primeira gargalhada, aos seis meses.
Nessa mesma época, o bebê entrou na sala de operação pela segunda vez. “Foram dez horas de agonia, dez horas de cirurgia”, conta a mãe.
Mas logo depois dessa segunda cirurgia, o coração começou rapidamente a perder as funções.
“O médico chega para você e fala: ‘não há mais o que fazer, a não ser o transplante, é isso ou nada’”, lembra a mãe.
O novo coração veio logo, em apenas uma semana. Mas, momentos antes de deixar a UTI “Ele apresentou um acidente vascular cerebral hemorrágico. Toda a parte direita do Wesley ficou parada. Braço, perna, não mexiam”, diz Carlos Ferreiro, coordenador da UTI Cardiopediátrica do HCOR.
Mais uma cirurgia, mais uma superação. Depois de retirar o coágulo do cérebro, o Wesley passou por sessões de fisioterapia para recuperar os movimentos. “Ele não ficou com sequela neurológica nenhuma”, comemora Elis.
Ao todo, o Wesley enfrentou nove cirurgias. Ficou quase metade dos dois aninhos dentro do hospital, lutando pela vida.
“Essas crianças que ficam no hospital muito tempo com a gente, passam seis, sete, oito meses, acabam desenvolvendo uma relação emocional com todos nós muito forte”, diz o médico Carlos Ferreiro.
No dia 15 de abril, uma quarta-feira, o Wesley completou dois aninhos. O pessoal do hospital fez para ele um bolo de aniversário. Ele ainda estava no quarto, não podia receber visita de muita gente, porque ainda estava em recuperação e existia o risco de infecção.
Mas só uma semana depois do aniversário, veio o presente, o momento mais esperado pela família da Wesley: a alta do hospital. Depois de meses, ele vai finalmente para casa.
“Acho que nem palavras vão expressar o carinho e o amor que eu tenho por cada um de vocês. Obrigada gente”, diz Elis a equipe de médicos e enfermeiras. “É uma grande vitória para mãe e para a gente. Essa mãe forte do jeito que é”, se emociona a enfermeira Viviane Lino.
Em casa, quem dá as boas-vindas é o irmão mais velho, o Vitor. “Estava com muita saudade”, ele diz.
Fantástico: Você desejava isso? Chegar, colocar ele no bercinho que você comprou pra ele.
Elis Costa: Muito, porque nem quando ele nasceu a gente não montou berço.
Fantástico: Por quê?
Elis Costa: Porque a gente não sabia o que ia acontecer. Eu estou montando tudo. É o renascimento dele.
O Wesley ainda está com uma traqueostomia, um buraco feito na garganta para passagem de ar. Mas ela vai ser retirada em breve. Wesley vai continuar tomando remédios para evitar a rejeição do coração transplantado. “Me sinto realizada, completamente realizada. Eu enxergo o Wesley como símbolo de amor, de esperança”, diz a mãe.

Grupo faz 'rachas' de moto e tenta chegar a 299 km/h em rodovias


Fantástico acompanhou operação da polícia contra o grupo. Vídeos na internet mostram motoqueiros dirigindo em altas velocidades nas estradas.

Corridas de motos superpotentes em uma das principais rodovias de São Paulo. Vídeos que estão na internet mostram que esse tipo criminoso de corrida, conhecido como “racha” ou “pega”, se repete em várias estradas do Brasil.
As motos deveriam andar a 100, 110 km/h, que é a velocidade permitida na maioria das estradas brasileiras. Deveriam.
“273 mais ou menos. Louco demais. Obrigado Deus”, diz um dos motoqueiros no vídeo.
Na Paraíba, um grupo de motoqueiros ganhou fama e até um apelido: "Clube do 299".
Eles aceleram muito, com um objetivo: chegar a 299 km/h.
“A partir do momento que ele atingiu aquilo, registrou aquilo, aquilo vai fazer ele ser mais respeitado como motociclista que corre mais”, diz Anderson Poddis, assessor de comunicação da PRF-PB.
“Vários deles furaram blitz, chegando inclusive a ter a possibilidade de atropelar um dos guardas da Polícia Rodoviária Federal. São verdadeiras armas nas mãos daqueles que não querem cumprir a legislação”, afirma Bertrand Araujo Asfora, procurador-geral de Justiça da Paraíba.
Nos últimos quatro meses, a Polícia Rodoviária Federal acompanhou cada movimento desses motoqueiros da Paraíba. Descobriu que eles usavam grupos restritos nas redes sociais para marcar as corridas.
É na BR-230, a principal rodovia do estado da Paraíba, que os motoqueiros faziam os rachas. Na estrada, a velocidade máxima permitida é de 110 km/h.
Na rodovia, entre João Pessoa e Campina Grande, os motoqueiros cometem infrações gravíssimas: fazem ultrapassagens perigosas em local não permitido e até pilotam sem segurar o guidão.
Os motoqueiros faziam questão de compartilhar os vídeos com os amigos. Em janeiro, policiais gravaram um dos rachas do Clube do 299. No vídeo, todas as motos passam voando. Algumas estão indo tão rápido que o radar nem consegue registrar a velocidade.
Para mostrar o tamanho do perigo, o Fantástico fez um teste no Autódromo de Interlagos, em São Paulo. Primeiro, pedimos a um piloto profissional que dirigisse a 110 km/h. E depois, a mais de 200 km/h.
E os freios? Como funcionam numa situação dessas? A 110 km/h, a moto parou depois de percorrer 34 metros. A mais de 200 km/h, a moto percorreu 143 metros, uma distância quatro vezes maior até parar.
“Na estrada, a chance de morrer é alta. Por quê? Primeiro, você não controla as variáveis. Você não sabe se tem uma sujeira no chão, uma ondulação. A 200 por hora, uma ondulação é suficiente para derrubar”, alerta Roberto Manzini, especialista em direção defensiva.
Na sexta-feira (24), o Fantástico acompanhou a operação contra o Clube do 299 na Paraíba.
Polícia Rodoviária Federal, Polícia Civil e Ministério Público já tinham provas suficientes para apreender as motos e as habilitações dos integrantes do grupo. Segundo as investigações, quem organizava as corridas clandestinas era o empresário Gibran Moraes. Ele aparece em vários vídeos fazendo manobras arriscadas e em altíssima velocidade.
No apartamento de Gibran, os policiais também encontraram um revólver e munição até para fuzil. Em um vídeo, o empresário aparece atirando com uma pistola 9 milímetros, que é de uso exclusivo das Forças Armadas. Por causa da munição de fuzil que é de uso restrito, Gibran continua preso.
Na operação policial desta semana, na Paraíba, dez motoqueiros acusados de participar dos rachas tiveram a habilitação apreendida. Ou seja, não podem dirigir.
“É uma questão de provar que ‘ah, eu não sou medroso. Não aconteceu nada’. Hoje. E amanhã? A chance de dar errado e de se matar é grande e ainda matar terceiros”, diz Roberto Manzini, especialista em direção defensiva.

José Bonifácio de Oliveira Sobrinho: “Minha namorada era a televisão”


O principal executivo da Rede Globo por três décadas conta como foi difícil o começo da maior emissora de televisão do país – que completa 50 anos nesta semana

JOSÉ BONIFÁCIO DE OLIVEIRA SOBRINHO
25/04/2015 10h00
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José Bonifácio de Oliveira Sobrinho | José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, foi um dos executivos mais poderosos da televisão brasileira. Entrou na TV Globo em 1967, com pouco mais de 30 anos, e ajudou a montar as bases da programação e da rede de afiliadas que transformaram a emissora na maior e mais bem-sucedida do país. Nascido em 1935 de uma família ligada à música e ao rádio, Boni foi vice-presidente de operações da Globo até 1997 e, a partir de então, consultor da emissora até 2001. Desde 2003 é sócio da TV Vanguarda, retransmissora da Globo no interior de São Paulo. (Foto: Acervo TV GLOBO/CEDOC)
26 de abril de 1965.
Comecei a sonhar com a televisão em 1949, quando a Rádio Nacional do Rio de Janeiro fez uma demonstração no Edifício A Noite. Em 1950, acompanhei a inauguração da PRF-3, TV Tupi-­Difusora, Canal 3 de São Paulo, a primeira emissora da América Latina. Dois anos depois, com 17 anos, fui contratado pelas Emissoras Associadas como redator de rádio e televisão. Em 1955, Rodolfo Lima Martensen  (radialista e publicitário) me convidou para ser chefe  do Departamento de RTV – rádio e televisão – da Lintas, agência internacional de publicidade da Unilever.

Em uma das minhas idas ao Rio de Janeiro, em 1958, o então diretor comercial da TV Rio,Aristides Cerqueira Leite, me apresentou seu promissor assistente, um jovem de 22 anos chamado Walter Clark. Como eu tinha 23 anos, nos entendemos muito bem e imediatamente nasceu uma amizade. Todas as vezes que vinha de São Paulo para o Rio, encontrava o Walter. Saíamos à noite para jantar e conversar sobre televisão. A Lintas havia me enviado aos Estados Unidos para um breve curso de televisão. Falávamos já naquele tempo danecessidade de uma rede nacional de emissoras e de um telejornal nacional. Ficávamos de bar em bar até raiar o dia, falando como seria a televisão que gostaríamos de fazer.Abandonávamos nossas namoradas e, quando cobrados por elas, que achavam que estávamos na “esbórnia noturna”, explicávamos que estávamos sonhando com o futuro da televisão brasileira. Poucas acreditavam em nossa versão. Achavam uma desculpa esfarrapada. Na verdade, nossa grande namorada era a televisão.
>> Arquivo N: relembre momentos marcantes do jornalismo nos 50 anos da TV Globo

Em 1963, Walter Clark, já diretor-geral da TV Rio, me chamou para ser o diretor artístico da emissora. Tentamos fazer a rede com a TV Record de São Paulo, mas o Paulinho de Carvalho (Paulo Machado de Carvalho, fundador da Record) achava, na época, que televisão era uma coisa regional. Em 1966, a Tupi me convidou para montar o Telecentro, uma produtora nacional de programas que abasteceria a rede Associada de Emissoras. Topei, e o projeto foi um sucesso. Mas o sistema de capitanias não hereditárias do condomínio acionário criado por Assis Chateaubriand estimulou as emissoras menores da rede a não remeter o pagamento pelos programas que recebiam. O Telecentro, apesar do êxito artístico e de audiência, acabou morrendo aos poucos.
>> Em página especial, repórteres contam momentos marcantes da carreira

Nesse momento, em 1966, o Walter foi para a GloboEm março de 1967 eu aceitei o convite dele e também fui. Começava, então, um desafio sem precedentes. A Globo estava sob uma dura campanha dos Diários Associados, liderada pelo João Calmon (então deputado, presidente da Associação Brasileira de Rádio e Televisão s e um dos condôminos-proprietários dos Diários e Emissoras Associados), devia dinheiro ao grupo americano Time-Life e vinha de uma série de fracassos desde sua inauguração, em 1965. Encontrei na Globo a figura magistral de Joe Wallach, um administrador que o Time-Life mandara ao Brasil e que se abrasileirou imediatamente. Não tínhamos dinheiro, mas o Joe nos ensinou a administrar o que tínhamos. Vindo de fora, viu que o Brasil era tão grande que o sucesso de uma rede nacional era inevitável. O grupo Time-Life não viu isso. Acuado pela pressão do Calmon e de uma CPI, acabou desistindo do Brasil.
>> Navegue pelo Almanaque 50 anos

Roberto Marinho empenhou casas e até as calças para tocar a Globo. Acreditou no Walter Clark, em mim e no Joe Wallach quando ainda éramos muito jovens. Eu e o Walter tínhamos pouco mais de 30 anos de idade. O Joe não muito mais que 40. Pedro Bial fez uma boa síntese disso dizendo que, quando jovem, doutor Roberto só convivia com os mais velhos para aprender. E, quando mais velho, só acreditava nos jovens para fazer.

Nas discussões iniciais sobre a estratégia a ser adotada fiz uma colocação ao Walter: o risco é muito grande e não podemos mais pensar na televisão como uma namorada, agora é casamento. E assim foi. Largamos tudo para nos dedicar à Globo. Eu topei uma participação nos lucros e fiquei sem salário quase três anos. Além do Joe Wallach contamos com parceiros como Ulisses Arce, José Octavio de Castro Neves, Mauro Borja Lopes, o Borjalo; os irmãos Renato e Edwaldo Pacote, Daniel Filho, Armando Nogueira, Alice-Maria Reiniger, Adilson Pontes Malta, João Carlos Magaldi, Augusto Vanucci, Walter Avancini, Janete Clair e Dias Gomes. Gente com talentos extraordinários.
O APRESENTADOR Cid Moreira, um dos dois apresentadores iniciais do Jornal Nacional, em 1969. O  JN foi o primeiro telejornal em cadeia nacional (Foto: Acervo TV GLOBO/CEDOC)
A NAMORADINHA Regina Duarte na novela Véu de noiva, de 1969. Ela veio para a Globo porque as suas prestações estavam atrasadas (Foto: Acervo TV GLOBO/CEDOC )
A ideia básica era focar no conteúdo para garantir um futuro seguro. Para penetrar em São Paulo, vieram Tarcísio e Glória Menezes, Regina Duarte, Francisco Cuoco, Lima Duarte e Sérgio Cardoso. Tarcísio e Glória foram contratados num jantar em uma cantina paulista ao lado do Teatro Brasileiro de Comédia. A Regina Duarte era um trunfo para a novela Véu de noiva e eu precisei pesquisar sua vida pessoal para fazer um contrato. Descobri que o salário dela estava atrasado na TV Excelsior e que, recém-casada, estava devendo até as prestações de móveis, geladeira e fogão. Munido desses argumentos, consegui contratar a namoradinha do Brasil. Com isso, decidi renovar o estilo de novelas que havia na Globo. Mandar a Glória Magadan embora não foi fácil. O Walter Clark havia tirado a Glória da Colgate-Palmolive e tinha uma série de compromissos com ela. Foi preciso descobrir uma brecha no contrato e contar com o Renato Pacote, que, instruído por mim, aconselhava a Glória Magadan ao enfrentamento comigo, uma situação que eu queria para denunciar o contrato. Deu pena, mas era necessário.

Enquanto nos fortalecíamos na produção de conteú­do, nos dividíamos em outras direções, àprocura de emissoras de outros Estados que pudessem ser nossas afiliadas ou compradoras do nosso produto. A primeira afiliada conquistada foi a emissora do Triângulo Mineiro, a TV Integração, de Tubal Siqueira. Depois, como era amigo do Maurício Sirotsky, recebi a missão de trazer para a Globo a emissora TV Gaúcha, do Rio Grande do Sul, hoje RBS. Para finalizar os entendimentos, fomos a Porto Alegre eu, Walter, Joe Wallach e José Octavio de Castro Neves. Maurício Sirotsky nos colocou carros à disposição para um almoço em Caxias do Sul. Quando chegamos a Novo Hamburgo, eu e o Joe Wallach fomos tomar um café, e o Walter e o José Octavio assumiram a direção dos veículos. Cada um em um carro, começaram uma disputa na pracinha bucólica da cidade. Não deu outra. Os dois foram presos pelo delegado local e só saíram à noite, com a vinda e intervenção do Maurício, que, bem-humorado como sempre, fez piada da situação com um trocadilho: “Vocês não vieram aqui para discutir uma rede de televisão? Pois começou com uma cadeia”.

Quando completamos um número razoável de afiliados, eu me empenhei pessoalmente na ampliação da distribuição do sinal no Estado de São Paulo. Com o engenheiro Adilson Pontes Malta e o Ernesto Amazonas, montamos emissoras nas principais cidades paulistas. Contamos com o apoio do Joe Wallach, mas o investimento foi feito escondido do doutor Roberto. Em 1969, chegou a rede nacional de micro-ondas implantada pelo governo. A ideia de um telejornal para todo o Brasil, a exemplo do que se fazia nos Estados Unidos, era defendida por todos na emissora. Mas havia problemas de custo e uma discussão sobre o formato. O Arce arranjou o dinheiro com um patrocinador, e eu e o Armando Nogueira e a Alice definimos o formato e colocamos no ar o Jornal Nacional.

A primeira decisão a ser tomada foi exatamente a questão do formato. Algumas pessoas defendiam que cada capital deveria entrar no ar com o seu próprio apresentador, mas eu, Armando e Alice queríamos seguir o modelo americano, centralizando as notícias do país com um telejornal apresentado por dois âncoras. Essa discussão levou o Walter a crer que o Armando era contra o projeto, quando na verdade colocar o JN no ar era o maior desejo do Armando. Vencemos a discussão e adotamos o modelo que até hoje está no ar.
O segundo problema foi a escolha do horário. Na Tupi, com quase 20 anos de vida, estava oRepórter Esso, que era transmitido localmente pelas emissoras associadas. Tínhamos de enfrentar o forte concorrente e dono absoluto do gênero telejornal. A questão era: brigaríamos diretamente com o Repórter Esso ou colocaríamos nosso telejornal em outro horário? A decisão ficou comigo e optei pela concorrência direta. O Repórter Esso tinha muito texto e poucas imagens. Raríssimas reportagens com som direto, sendo a maioria das matérias apenas lidas, e algumas com imagens e narração superposta. Ganhamos a briga logo no início e poucos anos depois o Repórter Esso foi extinto.

A colocação no ar do Jornal Nacional foi, no meu entender, nossa maior conquista e a chave que abriu as portas do Brasil. Depois do JN lançamos outros programas em rede, todos com absoluto sucesso. E começamos a eliminar programas que davam audiência, mas que não se enquadravam no perfil de um público mais sofisticado. Outros saíram do ar pressionados pela censura. Dercy Gonçalves, que havia sustentado a Globo nos primeiros momentos com um extenso programa ao vivo, teve de passar a ser gravada por exigência dos censores. O programa, depois de gravado, sofria tantos cortes que tivemos de tirá-lo do ar. Chacrinha, que havia conquistado uma reputação nacional com a melhoria do nível de suas atrações, resolveu comprar a briga pela audiência com o Flávio Cavalcanti, optando por momentos inaceitáveis para os padrões que quería­mos impor. O Chacrinha saiu em 1969 e só voltou para a Globo em 1982, dessa vez sem nos dar nenhum trabalho.

Em uma biografia recente, consta que, a minha revelia, doutor Roberto havia oferecido um contrato em branco para o Chacrinha. Isso não tem o menor fundamento. Doutor Roberto não se metia em programação e comemorou a entrada no ar do Fantástico, do Chico Anysio, do Faça humor não faça a guerra e outros programas que lançamos quando perdemos a Dercy e o Chacrinha. Tínhamos carta branca para fazer o que era melhor para a empresa.

Quando chegamos, a Globo Rio estava em quarto lugar. O Canal 5, comprado depois pela Globo, estava em quinto. Havíamos prometido ao doutor Roberto que em cinco anos assumiríamos a liderança nacional. Mas aconteceu muito antes disso. Em 1969, dois anos depois, tínhamos a liderança no Rio. Em 1970, três anos depois, tínhamos a liderança nacional.Mudei por minha conta e risco o nome de TV Globo para Rede Globo, apagando em São Paulo o nome TV Paulista, como se chamava o Canal 5 antes da compra pelo doutor Roberto.

Fomos vítimas de três incêndios. Dois no Rio e um em São Paulo. O de São Paulo foi devastador, mas trouxe uma contribuição. Toda a programação de rede estava unificada, mas a produção não. Não havia espaço nos pequenos estúdios do Jardim Botânico e, como muitos artistas paulistas não queriam gravar no Rio, tínhamos, na época, produção de uma novela em São Paulo. No dia seguinte ao incêndio, os diretores de novelas no Rio, chefiados pelo Daniel Filho, apertaram suas produções e criaram o espaço para a transferência da produção da novela de São Paulo. Os artistas paulistas, vendo o tamanho do nosso problema, aderiram à ideia de se transferir para o Jardim Botânico, com o sacrifício de ter de se instalar em hotéis e até na casa de colegas. Se a programação nacional era única, a produção também passou a ser.

Durante 30 anos, os maiores sucessos da Globo foram produzidos nos estúdios construídos apenas para o jornalismo, vocação que o doutor Roberto havia definido quando o prédio foi projetado. No final dos anos 1970, o Walter Clark entrou em rota de colisão com o doutor Roberto e saiu da Globo em 1977. Foram dez anos de uma parceria perfeita. O Walter queria a minha adesão a sua saída. Eu não podia acompanhá-lo. Havia trazido quase todos os diretores, autores, atores e atrizes e tinha mais compromisso com eles do que com o Walter. Não podia abandoná-los depois de tanto empenho para conquistá-los. Seria uma traição a todo esse pessoal sair com o Walter. Tentei explicar isso a ele, mas não foi possível. Ele continuou imaginando que a saída dele era obra minha. Uma pena. Lutei até o último momento para que ele ficasse e só desisti quando doutor Roberto me disse: “Prefiro perder a Globo a deixar o Walter ficar”.
O FUNDADOR Roberto Marinho  na inauguração do Projac, em 1995.  Sua prioridade  era o jornalismo (Foto:  Arquivo/Ag. O Globo)
Com o apoio irrestrito do Joe Wallach,aumentamos os investimentos em conteúdo e iniciamos um novo período de expansão da empresa. A Globo, com a participação do Magaldi, criou o Criança esperança e outros programas de prestação de serviço. O parque técnico foi ampliado, iniciamos as transmissões por satélite incentivados pelo Magaldi e aumentamos os investimentos no conteúdo, conseguindo, nos anos 1980, atingir o auge do sucesso da Globo. No final dos anos 1990, graças a um esforço do Roberto Irineu Marinho, deixamos os estúdios do Jardim Botânico e euentreguei ao doutor Roberto a primeira “claquete”que ele bateu inaugurando o Projac.
Nossos produtos, além de tomar conta de todo o Brasil, passaram a ser exportados para todo o mundo, aceitos como de alta qualidade e grande competitividadeChina, Rússia e Cuba, países socialistas, também passaram a consumir nossas novelas, minisséries e especiais. Um dia na Grécia, devido a uma tempestade no mar, tivemos de nos abrigar na Ilha de Kea, absolutamente fora da rota turística grega. Ao descobrirem na cidade que éramos brasileiros e, ainda mais, que trabalhávamos na Globo, eu e o Hélio Costa, com minha mulher, Lou, e a mulher do Hélio, fomos carregados para uma festa, onde a dona da casa era apaixonada pela série Malu mulher e pela Regina Duarte. Fomos mais homenageados do que a aniversariante. Fidel Castro mudou o horário de corte de luz para que a população de Cuba assistisse a Escrava Isaura e a Rússia editou um capítulo de três horas de duração de Mulheres de areia só para garantir a presença da população em Moscou em um dia de eleições. No Líbano, um motorista de táxi recusou-se a receber pela corrida porque era fã de Sônia Braga e da novela Gabriela. Em Roma, até hoje, um famoso restaurante de peixes não me cobra a conta porque o dono, italiano, encantou-se comDancin’ days e acabou casando com uma brasileira. Atualmente, com a Globo Internacional, milhares de brasileiros acompanham a programação da emissora em suas casas ou nos melhores hotéis do mundo. Mais de 100 países exibem os produtos da Globo dublados ou legendados.
O ANIMADOR Chacrinha com  a cantora Elza Soares, em 1968.  O animador saiu  da Globo em 1969  e voltou em 1982 (Foto: Nelson Di Rago/TV GLOBO)
Passei na Globo 31 anos da minha vida e me orgulho de termos consolidado o mercado de trabalho para os técnicos e artistas brasileiros. É bom ver a Globo completando seus 50 anos, com 45 anos de hegemonia de audiência graças à competência de seus profissionais e ao permanente espírito de renovação da empresa. Parabéns, Rede Globo!