Vladimir Aras: “Hoje você não esconde mais dinheiro na Suíça”


Para o chefe da Secretaria de Cooperação Jurídica Internacional do Ministério Público, nunca os investigadores tiveram tantas ferramentas para rastrear criminosos e recursos desviados

ALANA RIZZO
15/08/2015 - 10h01 - Atualizado 15/08/2015 10h01
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Procurador da República desde 2003 e chefe da Secretaria de Cooperação Jurídica Internacional, Vladimir Aras era promotor de justiça no interior da Bahia quando decidiu entrar para oMinistério Público Federal. Ele queria rastrear as contas de mais de 35 mil brasileiros que enviaram R$ 150 bilhões para paraísos fiscais durante o escândalo do Banestado. O doleiro Alberto Youssef era um dos delatores do esquema. Hoje, ele coordena o grupo que caça pelo mundo dinheiro subtraído dos cofres públicos brasileiros no petrolão. A Lava Jato é a operação com maior número de pedidos de cooperação internacional no Brasil – e não deve parar. “A operação aumentou a credibilidade do país porque estão vendo que está funcionando. Os envolvidos estão colaborando e estamos localizando os recursos desviados”, afirma Aras. “A asfixia financeira é a melhor forma de combater o crime.” A conversa com ÉPOCA foi interrompida diversas vezes por contatos internacionais. “Tenho grupos de WhatsApp com procuradores do mundo todo. Não para” , diz Aras.
O procurador Vladimir Aras (Foto: Adriano Machado/ÉPOCA)
ÉPOCA – Como foi possível a cooperação internacional no âmbito da Lava Jato?
Vladimir Aras – 
Cada vez mais a cooperação será utilizada e será cada vez mais difícil esconder dinheiro. Hoje você não esconde mais dinheiro na Suíça. A Suíça hoje colabora muito mais que outros países. O cerco está sendo fechado, e a mentalidade de um país muda muito por conta de pressão externa também. A Suíça foi colocada alguns anos atrás numa lista cinza em que se apontava o que o país estava fazendo de errado. Existe agora uma espécie de “compliance” nacional. A lista suja faz com que o país tome vergonha e se movimente. Aconteceu com o Uruguai também.  São vários vetores ao mesmo tempo que vão surgindo. Sem eles você não teria a Lava Jato.
ÉPOCA – Quais os avanços na cooperação internacional desde as primeiras experiências do caso Banestado?
Aras – 
As ferramentas que foram utilizadas no Banestado são muito semelhantes àquelas que estão sendo usadas agora pela Lava Jato: delação e pedidos de cooperação. Foram muitos naquela época e esse número é hoje muito maior. As ferramentas são semelhantes, mas a estrutura do Estado melhorou. Hoje temos mais tratados, e equipes do Ministério Público e Polícia Federal mais treinadas a manejar esses instrumentos. Lá atrás, embora você tivesse as mesmas possibilidades de obter provas no exterior, você não tinha por exemplo as convenções internacionais de Merida (2006) e de Palermo (2004). O Banestado terminou em 2006. A Lava Jato pegou então um outro arcabouço jurídico e outra consciência internacional. A gente não imaginaria a Suíça fazendo isso que está sendo feito agora há dez anos. A Suíça está colaborando com repatriações maiúsculas. Para a Lava Jato, temos conversado com gente de mais de 20 países e já foram mais de 50 pedidos de cooperação.
ÉPOCA – Por que se fazem tantas críticas à delação premiada?
Aras – 
Porque mudou o alvo dos acordos de delação e aí se criou uma celeuma. Ninguém nunca criticou a delação no caso do Hildebrando Pascoal, a chacina de Unaí ou homicidas. Quando a gente fala do homicida, do estuprador, do ladrão, você está falando de alguém que é um estranho a você. Já quando você fala de alguém que comete crimes econômicos, está falando de alguém que está muito mais próximo de seu grupo cultural do que aquele estuprador, homicida... Tem esse aspecto e tem as diferenças estruturais do modelo brasileiro, que depende de dois tribunais que defendem todas as causas do país. Mas a delação é importante para acelerar o procedimento de repatriação dos valores. Temos casos aqui de quase dez anos e ainda não conseguimos recuperar nada.
ÉPOCA – Quais são os maiores entraves para a recuperação do dinheiro?
Aras –
 Os entraves estão no sistema recursal, de se recorrer sempre. É um sistema que está vocacionado para a impunidade e para que as coisas não aconteçam. Por isso a série de condenações que começou em 2013 surpreendeu tanto. O ex-deputado Natan Donadon abriu a fila porque a ministra Cármen Lúcia antecipou o trâmite em julgado para impedir que os recursos atrasassem o julgamento. Você não pode ficar recorrendo o resto da vida para impedir que sua pena seja cumprida. No momento que você usa o sistema para atrasar ou impedir a funcionalidade dele, o contribuinte está pagando por algo que não serve para nada. Por isso a delação é uma ferramenta importante e prevista em lei.
ÉPOCA – O Brasil demanda mais ou é demandado?
Aras –
 Demandamos muito mais. Somos o país que mais demanda, inclusive pelo fluxo de valores. O caminho de quem comete crime é muito mais daqui para fora. Claro que temos muitos investimentos, inclusive é uma deficiência interna de nosso sistema de investigação, de europeus que vêm investir em imóveis no Brasil para lavar dinheiro. Conhecemos, mas não sabemos o tamanho disso. O narcotráfico também é um mecanismo que pode trazer muitos valores por conta de organizações transacionais, como o PCC, e esses pedidos estão aumentando. Estamos recebendo cada vez mais pedidos de cooperação de países da América Latina.
"Hoje o conceito é formar redes de redes, que se conectam. Temos ponto de contato em todo o mundo"
ÉPOCA – Um problema é que você fecha o cerco de um lado e o crime cria novos caminhos, certo?
Aras – 
Sim. Você procura países que não têm acordos de cooperação, paraísos fiscais. Hoje você está se escondendo numa ilha como Seychelles, por exemplo, mas e no futuro? Veja Paulo Maluf, o ex-presidente da CBF José Maria Marin, que não podem sair daqui... Tem uma história curiosa sobre a fuga de PC Farias para a Inglaterra que ilustra bem essa questão internacional. Ele escolheu a Inglaterra porque na época não havia acordo entre Brasil e Reino Unido e ele não poderia ser extraditado sem tratado. Dali ele fugiu para a Tailândia e ali foi preso e deportado. Hoje você tem instrumentos e uma rede de bloqueio de ativos e busca de foragidos muito amarrada e que permite que a gente vá atrás da pessoa e do dinheiro onde quer que eles estejam, de uma forma que não existia antes. Veja o Nestor Cerveró, que pensou em fugir e voltou. Ou o Henrique Pizzolato, que acabou preso.
ÉPOCA – A cooperação deixou de ser um acordo de camaradas e passou a ser mais institucionalizada?
Aras –
 Sim. Hoje o conceito é formar redes de redes. Você constrói redes regionais e que se conectam com outras redes regionais. Então temos pontos de contato em todo o mundo. Outro ponto importante são os adidos pelo mundo. Queremos ter também nossas próprias representações no exterior.
ÉPOCA – Há um modelo de cooperação internacional considerado bem-sucedido? 
Aras –
 O modelo em que devemos nos espelhar é o modelo da União Europeia, que não é de um país, mas de todos. Ele tem todos os instrumentos de cooperação. No futuro, temos um projeto de criar a Amerijus, órgão supranacional de Ministérios Públicos. São promotores que coordenam ações em espaços comuns. Aqui no Mercosul, você facilita a vida do cidadão e a livre circulação de mercadorias, mas não tem a livre circulação de investigações e de medidas judiciais. O ideal é que uma medida aqui passe a valer na Argentina, por exemplo. Queremos uma cooperação mais fluida e mais profissional. É a busca da eficiência e da rapidez na transmissão das informações, ir direto ao ponto. Também queremos uma unidade de recuperação de ativos. É muito mais fácil achar gente. A pessoa faz uma cirurgia, vai se esconder, mas deixa rastro. Dinheiro dá muito trabalho – e muito mais por conta da deficiência estrutural de nosso modelo. 
ÉPOCA – A Secretaria também atua em casos que envolvem dramas familiares, como o sequestro internacional de crianças e pensão alimentícia. Como é a atuação nesses casos?
Aras –
 Todos esses casos são dramas para as famílias. Atuamos nos pedidos de sequestro e pedidos de pensões alimentícias. Temos muitos casos aqui. De 2013 a maio de 2015, foram 275 pedidos na Convenção de Nova York sobre Prestação de Alimentos no Estrangeiro, por exemplo. Então tentamos buscar uma solução judicial que agrade a todos. Mas também atuamos em casos como a recente repatriação de serpentes, de sangue ianomâmi, de fósseis, obras de arte e de pedras preciosas.

Veja tecnologias que não chegaram no Brasil e já são ‘sonho de consumo’

Paulo Alves
por 
Para o TechTudo

Brasileiros são apaixonados por tecnologia, mas quase sempre são obrigados a esperar para experimentar as verdadeiras novidades. Foi assim com o iPhone, com os primeiros notebooks e com a Internet 3G, por exemplo. E esse atraso tende a continuar por um tempo. Veja uma lista com cinco tecnologias que ainda não chegaram, mas já são aguardadas com ansiedade por muitos entusiastas.
1) Dispositivos de realidade virtual
Oculus Rift, do Facebook, poderá ser adquirido a partir de 2016, mas não no Brasil (Foto: Divulgação/Facebook)Oculus Rift, do Facebook, poderá ser adquirido a partir de 2016, mas não no Brasil (Foto: Divulgação/Facebook)
Com a promessa de revolucionar a experiência na hora de consumir games, filmes e todo tipo de multimídia, os principais dispositivos de realidade virtual ainda não chegaram nem nos EUA. O HoloLens, da Microsoft; e o Morpheus, da Sony – confira o comparativo feito durante a E3 – ainda deverão demorar para chegar até mesmo nos EUA.
Morpheus, da Sony, ainda deverá demorar muito até chegar ao mercado (Foto: Viviane Werneck/TechTudo)Morpheus, da Sony, ainda deverá demorar muito até chegar ao mercado (Foto: Viviane Werneck/TechTudo)
Já o mais famoso, Oculus Rift, vem de um desenvolvimento longo e deve chegar às prateleiras em 2016com um controle sem fios próprio. Ainda não se sabe em quais mercados estará disponível, mas, se depender de Mark Zuckerberg e o que ele pensa sobre o papel da realidade virtual no futuro do Facebook, pode-se esperar que, um dia, o dispositivo estará no mundo inteiro.
2) Google Fiber
O Fiber é a conexão em alta velocidade oferecida pelo Google (ou, agora, Alphabet). Ela alcança até 1 Gb por segundo, algo inimaginável se comparado com o que ofertam as operadoras brasileiras. Com essa velocidade, é possível baixar filmes de alta qualidade em poucos segundos e fazer praticamente tudo na nuvem – ideal para quem tem um Chromebook, por exemplo.
Fibra óptica de altíssima velocidade do Google ainda está longe do Brasil (Foto: Divulgação/Google)Fibra óptica de altíssima velocidade do Google ainda está longe do Brasil (Foto: Divulgação/Google)
Mesmo nos Estados Unidos, porém, o Fiber ainda engatinha, estando disponível somente em algumas cidades. Portanto, ainda deverá levar vários meses até que algo parecido chegue ao Brasil – ou anos, considerando a precariedade da infraestrutura de rede do país.
3) SSDs com vários terabytes
Discos de estado sólido entregam muito mais velocidade em qualquer computador, e os modelos com mais de 1 TB já estão virando realidade no mundo inteiro. A Samsung é uma pioneira nesse ramo, tendo apresentado recentemente a sua nova tecnologia NAND capaz de criar SSDs com até 16 TB de armazenamento.
Samsung lançou recentemente o primeiro SSD de 16 TB do mundo (Foto: Divulgação/Samsung)Samsung lançou recentemente o primeiro SSD de 16 TB do mundo (Foto: Divulgação/Samsung)
Porém, notebooks com SSD estão se tornando populares aos poucos no Brasil, e os modelos com HDD ainda são maioria. Comprar discos para instalação em desktops também é caro, principalmente se você não estiver disposto a importar. A espera para que os preços baixem e SSDs de alta capacidade possam ser comercializados pode facilmente ultrapassar dois anos.
4) Automação doméstica e IoT
Termostatos, alarmes e outros gadgets inteligentes ainda são escassos e caros no Brasil (Foto: Divulgação/Nest)Termostatos, alarmes e outros gadgets inteligentes ainda são escassos e caros no Brasil (Foto: Divulgação/Nest)
Outra tecnologia que começa a se popularizar nos EUA e em outros países desenvolvidos é a que envolve a Internet das Coisas – ou IoT, de Internet of Things. São eletrodomésticos, trancas de porta, janelas, luzes e todo o resto que compõe uma casa comum, mas com funções inteligentes que deixam tudo automatizado.
Dispositivos inteligentes permitem monitorar a residência pelo celular (Foto: Divulgação/Nest)Dispositivos inteligentes permitem monitorar a residência pelo celular (Foto: Divulgação/Nest)
A Nest, adquirida pelo Google, é uma das empresas mais conhecidas do ramo, mas que só comercializa, atualmente, para os EUA, Canadá e alguns países da Europa. Brasileiros, então, deverão esperar muito até que possam comprar termostatos, câmeras e alarmes direto da fabricante para controlar a casa pelo smartphone.
5) Tesla Powerwall
O sonho de consumo talvez mais longe de ser alcançado é ter uma bateria da Tesla dentro de casa. Fabricante de carros elétricos, a Tesla é presidida por Elon Musk, considerado uma espécie de Tony Stark da vida real, que anunciou a Powerwall em maio de 2015 com um objetivo ousado: junto com painéis solares, dotar o mundo de energia renovável e limpa.
Powerwall é bateria doméstica da Tesla sem previsão de chegada no mercado brasileiro Dispositivos inteligentes permitem monitorar a residência pelo celular (Foto: Divulgação/Tesla)Powerwall é bateria doméstica da Tesla sem previsão de chegada no mercado brasileiro Dispositivos inteligentes permitem monitorar a residência pelo celular (Foto: Divulgação/Tesla)
A bateria potente e com design arrojado já entrou em pré-venda. Mas, como precisa de pessoal treinado para instalar e oferecer suporte, além de uma infraestrutura mínima de painéis solares para funcionar, seu uso ainda será por muito tempo restrito a países de primeiro mundo.
Objetivo de Elon Musk, dono da Tesla, é oferecer energia limpa e renovável no mundo inteiro (Foto: Reprodução/Tesla)Objetivo de Elon Musk, dono da Tesla, é oferecer energia limpa e renovável no mundo inteiro (Foto: Reprodução/Tesla)
Mesmo sem previsão para chegar ao Brasil, é difícil pensar que haja alguém que não queira deixar de pagar conta de energia elétrica e, de quebra, ajudar a salvar o planeta do efeito estufa.

Canoeiro é suspeito de jogar filho de 4 meses no Rio Negro, diz polícia do AM


Criança está desaparecida e homem, foragido; fato ocorreu na sexta (14).
Homem também teria tentado matar ex-companheira.

Diego ToledanoDo G1 AM
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Ponte Rio Negro está localizada na Zona Oeste de Manaus e liga a capital a municípios como Iranduba, Manacapuru e Novo Airão (Foto: Adneison Severiano/G1 AM)Fato ocorreu no Rio Negro na noite de sexta-feira (14) (Foto: Adneison Severiano/G1 AM)
Um canoeiro é suspeito de ter jogado o próprio filho, de quatro meses, no Rio Negro após uma discussão com a mãe da criança sobre o pagamento de pensão alimentícia. Segundo a Polícia Civil, o homem também tentou matar a ex-companheira. A criança ainda não foi localizada, e a polícia faz buscas pelo suspeito desde a madrugada de sábado (15), em Manaus.
A mulher, que mora em Manacapuru, a 68 km de Manaus, chegou a capital ainda na manhã de sexta-feira (14) para conversar com o homem sobre o valor da pensão do filho. Os dois se encontraram por volta das 18h30, segundo o delegado plantonista do 19º Distrito Integrado de Polícia (DIP), Carlos Rufino.
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"Ele a chamou para o Porto de São Raimundo, onde trabalha fazendo travessias, dizendo que ia pegar o dinheiro da pensão na casa do patrão, que fica ali perto. Quando eles estavam no meio do rio, o suspeito tentou matar a mulher", contou.
O homem teria usado uma corda para tentar enforcar a ex-companheira, mas a mulher conseguiu se desvencilhar do suspeito.

Em depoimento à polícia, a vítima contou que, com raiva, o homem puxou a criança e a atirou no rio. "Na tentativa de fugir, ela também se jogou na água", contou o delegado, ressaltando que o suspeito teria tentado matar a vítima já na água ao passar diversas vezes com o motor da embarcação perto da cabeça da mulher.
A vítima conseguiu nadar até o Porto, onde procurou ajuda e foi encaminhada ao 19º DIP para registrar o Boletim de Ocorrência.
Segundo o delegado Rufino, o homem já foi identificado. "As equipes da polícia já estão nas ruas à procura dele para que seja trazido à delegacia e que possa prestar esclarecimentos", informou.
Até o começo da tarde deste sábado, a criança não havia sido localizada. O delegado contou que equipes da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros foram acionadas para realizar buscas desde a madrugada deste sábado (15).

Procuradoria Geral da República esmiúça seis fatos antes de denunciar Renan


Denúncia pode sair depois da recondução do procurador-geral Rodrigo Janot em setembro

MURILO RAMOS
14/08/2015 - 21h30 - Atualizado 14/08/2015 21h30
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O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) (Foto: Ed Ferreira/Estadão Conteúdo)
Os procuradores da Lava Jato esmiúçam seis fatos capazes de embasar a denúncia - ou denúncias - contra o presidente do Senado, Renan Calheiros, e ainda estão em busca de mais. Até agora o que mais agrada aos investigadores são as informações vindas do empreiteiro da UTC, Ricardo Pessôa. A denúncia contra Renan pode até ficar para depois da recondução do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, em setembro. Até lá, contudo, Renan e sua turma terão surpresas desagradáveis. 

'Não disseram por que cancelaram o visto', diz brasileira detida no Equador


Manuela Picq está em centro para estrangeiros em situação ilegal em Quito.
Audiência para decidir sobre deportação está marcada para segunda-feira.

Mariana LenharoDo G1, em São Paulo
Foto  mostra Manuela Picq depois de sua de sua detenção no Equador; imagem foi divulgada pelo Ministério do Interior do Equador (Foto:  Ministerio del Interior/Divulgação)Foto mostra Manuela Picq depois de sua de sua detenção no Equador; imagem foi divulgada pelo Ministério do Interior do Equador (Foto: Ministerio del Interior/Divulgação)
A jornalista brasileira Manuela Picq – que foi detida pelas autoridades do Equador durante um protesto na noite de quinta-feira (13) em Quito e teve seu visto cancelado nesta sexta – diz que as autoridades equatorianas não informaram a ela o motivo do cancelamento do visto. Desde a tarde desta sexta-feira, ela está detida em um centro para pessoas estrangeiras que estão em situação imigratória ilegal, chamado Hotel Carrión.
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“Fui informada por um policial que não tinha mais visto e não me disseram por que cancelaram o visto. Não tive acesso a nenhum juiz”, disse Manuela ao G1 por telefone na tarde deste sábado. Ela contou que estava no país com o visto 12 VIII, de Intercâmbio Cultural, que corresponde às suas atividades de pesquisa sobre movimentos indígenas e temas extrativistas e de gênero que desenvolve na Universidade San Francisco, de Quito, onde também dá aulas. Além da atividade acadêmica, ela escreve artigos e reportagens para veículos estrangeiros como freelancer.
Em nota oficial sobre o caso, o Ministério do Interior do Equador confirma que Manuela estava no país com o visto 12 VII e afirma que “o visto que a cidadã estrangeira mantinha atualmente está revogado pelo Ministério das Relações Exteriores”, sem porém explicitar a razão do cancelamento. Ao Itamaraty, o governo equatoriano afirmou que o motivo do cancelamento é que esse tipo de visto veda o envolvimento em atividades políticas.
Perdi todos os meus direitos constitucionais, primeiro por ter sido detida sem razão na rua e depois por ter perdido o visto de maneira arbitrária"
Manuela Picq
Segundo informações do Ministério do Interior, o visto 12 VIII se destina a autorizar o ingresso no Equador de pessoas "apoiadas por organismos nacionais e constituídos legalmente para desenvovler programas de intercâmbio cultural."
Detida durante protesto
Manuela foi detida enquanto tentava ajudar seu companheiro, Carlos Pérez Guartambel, presidente da confederação indígena Ecuarunari, durante um protesto contra o presidente Rafael Correa.
Ferida, foi levada pelos policiais a um hospital, onde recebeu atendimento durante a madrugada. “Não deixaram escolher hospital. Pedi para ir para a minha clínica particular e não deixaram. Desde o começo, mesmo antes de ter perdido o visto, eu estava sendo tratada como criminosa”, afirmou.
Sempre acompanhada por policiais, foi informada na manhã de sexta-feira que seu visto tinha sido cancelado. À tarde, foi encaminhada para o centro para imigrantes em situação imigratória ilegal. “Este centro é um tipo de uma cadeia melhorada. Tem um quarto com televisão e banheiro. Deixam sair do quarto para o almoço e jantar e para o banho de sol.” 
Manuela Picq em foto publicada em 2012 no Facebook (Foto: Reprodução/Facebook/Manuela Picq)Manuela em foto de 2012 publicada no Facebook
(Foto: Reprodução/Facebook/Manuela Picq)
Manuela diz que está recebendo um tratamento diferente das outras pessoas que estão no centro. “Meus advogados têm dificuldade para me ver, só conseguem vir duas vezes por dia, por 20 minutos. Outras pessoas ficam com os advogados por até duas horas se precisar.” Ela diz que as visitas também são limitadas: só são permitidas duas pessoas, três vezes por semana.
“Perdi todos os meus direitos constitucionais, primeiro por ter sido detida sem razão na rua e depois por ter perdido o visto de maneira arbitrária.”
Diplomacia brasileira
Na noite de sua detenção, um diplomata brasileiro a acompanhou no hospital, segundo Manuela. “O cônsul brasileiro estava presente e acompanhou o tratamento para assegurar que eu estava bem de saúde. No outro dia, quando teve todo o trâmite do cancelamento do visto, também fui acompanhada por um representante da embaixada brasileira.”
Este centro é um tipo de uma cadeia melhorada. Tem um quarto com televisão e banheiro. Deixam sair do quarto para o almoço e jantar e para o banho de sol"
Manuela Picq
Ela diz esperar que o governo brasileiro trabalhe para assegurar seus direitos. “Entendo que tirar o visto de uma cidadã brasileira é um assunto interno equatoriano. Mas que a cidadã brasileira perca seus direitos constitucionais e direitos básicos, como liberdade de movimento e liberdade de comunicação também é um tema de preocupação do Brasil. Estou em uma situação precária, detida sem nenhuma acusação séria.”
O Itamaraty disse à BBC, por meio de nota, que "a Embaixada do Brasil em Quito está ciente da detenção de Manuela Picq e mantém contato constante com o Ministério do Interior e com a Chancelaria locais sobre o caso, de modo a garantir à cidadã brasileira pleno direito de defesa enquanto permanecer sob custódia da Justiça local. Um funcionário da Embaixada foi designado para prestar assistência à brasileira."
Uma audiência para decidir se ela deve ser deportada está marcada para segunda-feira à tarde. “Espero que haja uma decisão final rápida para que essa situação de limbo legal termine.”
O companheiro de Manuela, Guartambel, também foi ferido durante as manifestações e foi hospitalizado. Ele postou em seu Facebook que teve alta na noite desta sexta-feira e que continuava machucado, mas que o que o preocupava era a situação de Manuela. "Querem deportá-la por simplesmente estar nesta nossa luta", publicou.
Foto postada no Facebook neste sábado por Carlos Perez Guartambel, companheiro de Manuela Picq e presidente da confederação indígena Ecuarunari: "Tem estado comigo em muitos momentos difíceis e este é um dos mais complexos que estamos vivendo", escreveu. (Foto: Facebook/Reprodução/Carlos Perez Guartambel)Foto postada no Facebook neste sábado por Carlos Perez Guartambel, companheiro de Manuela Picq e presidente da confederação indígena Ecuarunari: "Tem estado comigo em muitos momentos difíceis e este é um dos mais complexos que estamos vivendo", escreveu. (Foto: Facebook/Reprodução/Carlos Perez Guartambel)
Protestos em Quito
Os protestos de quinta-feira em que a jornalista brasileira foi detida deixaram 67 policiais feridos e 47 manifestantes detidos, informou nesta sexta-feira o vice-ministro de Segurança Interna, Diego Fuentes.
Indígenas, organizações sindicais e políticas protagonizaram um intenso dia de protesto contra o presidente Rafael Correa, que incluiu o bloqueio de vias, para exigir, entre outros, o arquivamento de um pacote de emendas constitucionais, incluindo uma que permitiria a Correa, no poder desde 2007, ser candidato nas eleições de 2017.

Agência Pepper Interativa, ligada ao PT, tinha conta na Suíça para receber da Queiroz Galvão


A agência de comunicação admite que pagou ao menos duas faturas de cartão de crédito da mulher do governador Fernando Pimentel

FILIPE COUTINHO
14/08/2015 - 22h51 - Atualizado 14/08/2015 23h23
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A agência de comunicação Pepper Interativa cresceu na esteira das duas campanhas da presidente Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto. Notória por realizar ataques virtuais contra grupos críticos ao PT, a Pepper, da publicitária Danielle Fonteles, caiu nas graças de próceres do partido, como o ex-tesoureiro João Vaccari Neto e o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel. Graças à proximidade com eles, a Pepper mantém contrato com o PT. É o maior cliente da agência – quase  70% do faturamento dela vem do partido. ÉPOCA descobriu que, em 2012, a Pepper montou uma operação intrincada no exterior para receber valores da construtora Queiroz Galvão. Meses antes, a empreiteira recebera do BNDES para financiar serviços na África. A Pepper criou, em nome de laranjas, a Gilos, uma offshore no Panamá. Criou também uma conta secreta na Suíça para movimentar a dinheirama de um contrato de fachada com a filial da Queiroz Galvão em Angola. A conta, cuja identificação é CH3008679000005163446, foi aberta por Danielle Fonteles no banco Morgan Stanley. Na ocasião, não foi declarada à Receita ou ao Banco Central. 
 
CASO DE PROCON 1 | A Polícia Federal faz busca na Pepper durante a Operação Acrônimo   (Foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
ÉPOCA obteve cópia do contrato entre a offshore Gilos Serviços e a empreiteira, devidamente assinado por Danielle. Foi formalizado em setembro de 2012. A Gilos recebeu US$ 237 mil (R$ 830 mil, ao câmbio de hoje) da Queiroz Galvão para fazer marketing digital em Angola. O contrato, que elenca seis serviços, parece uma peça de ficção. Não há uma linha sequer sobre qual obra ou projeto da Queiroz Galvão deveria ser divulgado na internet pela Pepper. Naquele país, a Queiroz Galvão operou graças a financiamentos do BNDES. Em março de 2012, a empreiteira recebera US$ 55 milhões do banco. Naqueles tempos, Pimentel era ministro do Desenvolvimento e presidente do Conselho de Administração do BNDES.
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A publicitária Danielle Fonteles é amiga de próceres do PT (Foto: Reprodução)
2 | Contrato entre  a Gilos, offshore  da Pepper, e a Queiroz Galvão (Foto: Reprodução)
Danielle e a Pepper estão sendo investigados nas operações Lava Jato e, especialmente, Acrônimo. Nesta, que mira Pimentel e operações de lavagem de dinheiro do PT, a PF chegou a fazer buscas na sede da Pepper, num shopping de Brasília. Segundo a Polícia Federal, há evidências de que a Pepper foi usada para intermediar dinheiro do BNDES a Pimentel. Durante o primeiro mandato de Dilma, Pimentel era, na prática, o chefe do BNDES. A mulher de Pimentel, Carolina Oliveira, é apontada como uma espécie de sócia oculta da Pepper. Funcionou assim: entre 2013 e 2014, a Pepper recebeu R$ 520 mil do BNDES por serviços de publicidade e repassou R$ 236 mil a Carolina Oliveira. A Polícia Federal descobriu indícios de que Carolina Oliveira era mais que uma simples parceira da agência. A mulher de Pimentel distribuía cartões no mercado como se fosse representante da Pepper.

Na casa de Carolina Oliveira e Pimentel, em Brasília, a PF apreendeu uma tabela com valores. De um lado, aparece o nome Dani – o mesmo apelido da proprietária da Pepper. Os valores de “Dani” somam R$ 242.400. Do outro, há valores de Carol: R$ 143.982,95. Duas anotações chamam a atenção: R$ 11.100 e R$ 20 mil, registrados como “cartões”. Na tabela, a diferença dos valores, incluindo as vírgulas, entre “Dani” e Carolina é contabilizada como “crédito Carol”: R$ 98.417,05. Ou seja, é como se fosse um controle de caixa, de “Dani” para “Carol”, em que despesas de cartões de crédito de Carolina eram pagas pela Pepper e contabilizadas. A Pepper admite ter pago ao menos duas faturas do cartão de crédito da mulher de Pimentel, em razão da “amizade” entre Dani e Carol. A mulher de Pimentel, suspeita a PF, era funcionária do BNDES nesse período.
4 | Relação  de despesas de cartão de Carolina Pimentel  (Foto: Reprodução)
Após ÉPOCA procurar Danielle, a conta na Suíça foi declarada à Receita. “Carolina nunca recebeu qualquer repasse da Pepper quanto a operações realizadas junto ao BNDES”, diz a Pepper, em nota. A empresa diz que desconhece a tabela apreendida na casa da mulher de Pimentel. Sobre a criação da Gilos em 2012, no Panamá e em nome de laranjas, com conta na Suíça, Danielle afirma que seguiu orientações de advogados. “A Pepper foi orientada a constituir empresa no exterior e abrir uma conta em instituição bancária idônea. A existência dessa conta, assim como os valores recebidos, são de conhecimento da Receita Federal do Brasil. Todos os impostos oriundos das transações havidas no exterior foram recolhidos.” Danielle não explicou por que declarou a conta somente após ser procurada por ÉPOCA. A Pepper afirma que não há relação entre os serviços prestados à Queiroz Galvão e financiamentos do BNDES. O advogado de Carolina Oliveira, Igor Tamasauskas, disse que a defesa não poderia se manifestar porque não teve acesso à integra do processo, mas ressaltou que “toda a relação comercial entre nossa cliente e a referida empresa foi legítima”. A Queiroz Galvão afirma, ainda, que o contrato era para promover a empresa no exterior. “Todos os pagamentos foram efetuados de maneira absolutamente legal e transparente, seguindo os termos previstos em cada contrato. Esses trabalhos nunca estiveram vinculados a qualquer pagamento por parte do BNDES”. A reportagem pediu à Pepper e à Queiroz Galvão provas de que os serviços da agência de comunicação foram executados. Nenhuma delas respondeu ao pedido da revista.