Police Neto: "O monopólio do táxi é bom para o cidadão e a cidade?"


Único vereador a votar contra projeto em São Paulo que proíbe aplicativos como o Uber afirma que há espaço nas cidades para esse tipo de serviço

GABRIEL LELLIS (EDIÇÃO: LIUCA YONAHA)
24/07/2015 - 16h10 - Atualizado 24/07/2015 16h33
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Debate sobre a liberação do aplicativo UBER - Sim  (Foto: Ilustração: Espaço Ilusório)
ÉPOCA – Por que o senhor votou contra o projeto de lei do Uber?
Police Neto (PSD) –
 Na realidade, o projeto não proíbe o Uber, mas sim qualquer tecnologia relacionada à mobilidade urbana. Isso é muito perigoso para uma cidade com São Paulo, que tem problemas de mobilidade. O projeto está nos proibindo de usar ferramentas capazes de nos ajuda a resolver esse problema. Os aplicativos de mobilidade são todos aqueles que tentam colocar mais gente dentro de um mesmo carro para com isso diminuir o número de veículos nas ruas. Não tem nada sobre o Uber no projeto. A proibição é contra todos os aplicativos de compartilhamento de viagem.
ÉPOCA – Mas não existe no Uber nada específico para compartilhamento de viagens. Qualquer passageiro sozinho pode usar o serviço como um táxi.
Police Neto –
 O Uber pode sim servir para essa função. O plano diretor aprovado no ano passado reconheceu a nossa capacidade finita de financiar novas estruturas de transporte e prevê essa possibilidade de apoiar serviços de compartilhamento. O Uber hoje se assemelha ao táxi porque não foi disciplinado corretamente pelas autoridades. Existe lei legalizando esse compartilhamento de veículos. A prefeitura está sendo irresponsável, pois teve um ano para resolver o problema de uma forma equilibrada e sem conflito. Entretanto ela esperou para tomar uma decisão no momento mais tenso. O Uber é um serviço que pode ser efetivo, bom e eficaz. Mas qual foi a solução mais fácil? Bani-lo.
ÉPOCA – As ações da Câmara estão sendo tomadas por conta de uma pressão dos taxistas?
Police Neto –
 Não acredito em pressão dos taxistas. Eles detêm um monopólio e estão corretamente e legalmente defendendo os seus interesses de classe. A questão é saber se o poder público vai se curvar a essa força. Eu, na minha opinião, acredito na tese de que a livre concorrência gera melhor preços e serviços. O monopólio do táxi é bom para o cidadão e a cidade? Particularmente sei da qualidade do serviço prestado pelos taxistas hoje, mas me parece que hoje esse monopólio está provocando problemas como a venda ilegal de alvarás, tornando os condutores reféns. Isso não é bom para a cidade.
ÉPOCA – Se o Uber desbancasse a concorrência do táxi, não haveria um deficit nas contas públicas em razão de o serviço não pagar taxas e impostos?
Police Neto –
 A gente tem que pensar primeiro no cidadão usuário, e não ficar preocupado com a arrecadação da prefeitura. Temos de nos preocupar com a qualidade do atendimento e se o preço é justo ou não. Faltou para a Câmara pensar na seguinte questão: há uma disputa por mercado ou existe mercado para mais pessoas trabalharem? Hoje o cidadão paulistano se sente mal servido de transporte. Temos espaço para muitas ações como o Uber. A administração pública, em vez de organizar e ordenar os serviços, tem se contentado apenas com proibir as novas alternativas.
A melhor forma para organizar isso é permitir para o cidadão a liberdade de escolha entre os serviços prestados. O nosso erro é não discutir o que os aplicativos podem dar de bom para a cidade. Nós não somos reféns dos aplicativos, mas sim o contrário. O serviço é refém do cidadão. Errado é ficar preso a monopólios.
Vereador Police Neto (Foto: Divulgação)

Adilson Amadeu: "O Uber chegou a vários lugares do mundo na contramão das leis"


Autor do projeto de lei que proíbe aplicativos de transporte como o Uber em São Paulo afirma que não há como regulamentar o serviço

GABRIEL LELLIS (EDIÇÃO: LIUCA YONAHA)
24/07/2015 - 16h10 - Atualizado 24/07/2015 16h33
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Debate sobre a liberação do aplicativo UBER - Não  (Foto: Ilustração: Espaço Ilusório)
ÉPOCA – Por que o senhor considera necessário proibir serviços como o Uber?
Adilson Amadeu (PTB) – Meu projeto na verdade fala de aplicativos em geral, e não apenas do Uber. Quem quer oferecer um serviço desse tipo deve ter carros de placa vermelha e cadastro municipal. O Uber chegou a vários lugares do mundo na contramão das leis. São carros irregulares, sem nenhum tipo de alvará igual aos táxis. Lei é lei: se quiser circular tem de ter cadastro no órgão municipal e pagar imposto, alvará e vistoria. Senão, é a mesma coisa que eu colocar um ônibus na rua e começar a cobrar por itinerário. Se continuar assim vira moda e qualquer um começa a tirar dinheiro com isso. Mas a principal pergunta é: quem são os motoristas do Uber? Eles passaram por triagem? É a própria empresa que fiscaliza isso. Isso deixa o cidadão na mão de algo possivelmente perigoso.
ÉPOCA – Por que proibir o Uber em vez de regularizá-lo?
Amadeu – Regularizar o ilegal? Como é regularizar o ilegal? Isso não interessa pra eles. Eles querem continuar ganhar 20% sem recolher impostos. Não tem lógica. A tecnologia é maravilhosa. Mas já há aplicativos que trabalham com táxi. Não há necessidade do Uber, que passou em cima de todo mundo. Eles são poderosos, mas eu estou defendendo a lei. Alguns vereadores até propuseram para a empresa se legalizar. Mas o Uber quer continuar como está porque é mais fácil fazer as coisas assim. Eles querem ilegalidade. Querem ganhar dinheiro fácil.
ÉPOCA – Mas essa proibição não fere o direito democrático de o cidadão escolher o transporte que deseja?
Amadeu – Todos têm o direito de escolher, mas o Uber infringe uma lei. Não existe justificativa.
ÉPOCA – O senhor acredita que, se o projeto for aprovado em segunda votação, o prefeito Fernando Haddad vai sancionar a lei?
Amadeu – Eu acho que ele não é louco de não sancionar. Se ele fizer isso vai mostrar que gosta de ilegalidade. O prefeito não pode fugir das normas. Se não sancionar, ele estará indo contra a lei. Aliás, ele como Executivo já deveria nos ter ajudado com a fiscalização. No dia da votação, mais de 20.000 pessoas – a maioria taxistas – vão estar paradas na expectativa dessa aprovação. Na primeira plenário foi 48 a favor e apenas 1 contra.
ÉPOCA – Você chegou a conversar com algum executivo da startup antes de lançar o projeto de lei?
Amadeu – Tentei várias vezes, mas eles se escondem. Nunca apareceram numa audiência pública. Inclusive desafio eles a virem aqui. Eles não respondem quando acionados. São fantasmas. 
ÉPOCA – Há por trás da proibição do Uber uma pressão das cooperativas de táxi?
Amadeu – 100% dos taxistas são a favor. Não é só cooperativa. Já falei com mais de 50 taxistas e todo mundo se mostrou revoltando com essa ilegalidade. Estão tirando o dinheiro de quem está dentro da lei. Já fiz contato inclusive com a Polícia Federal e com o FBI porque acho que tem muito mais coisa por trás. E do meu lado tenho 500.000 pessoas nessa luta.
Vereador Adilson Amadeu (Foto: Divulgação)

Os dois lados do Uber


ÉPOCA ouviu os vereadores Adilson Amadeu, autor do projeto de lei que proíbe o aplicativo em São Paulo, e Police Neto, o único que votou contra

GABRIEL LELLIS (EDIÇÃO: LIUCA YONAHA)
24/07/2015 - 16h12 - Atualizado 24/07/2015 16h23
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Os taxistas em todo o país querem a proibição do Uber, aplicativo que possibilita o uso de carros particulares para o transporte remunerado de passageiro. Afirmam que se trata de transporte ilegal. Nesta sexta-feira (24), milhares de taxistas saíram em protesto às ruas do Rio de Janeiro, bloqueando o trânsito em diversas ruas. O secretário estadual de Transportes, Carlos Roberto Osorio, afirmou a O Globo que serviços como o Uber são ilegais, já que o transporte individual só pode ser realizado por táxis. Disse que reprimirá os motoristas que trabalham com o aplicativo.
Em resposta à manifestação, o Uber ofereceu corridas de graça e afirma que viu aumentar em 20 vezes o número de usuários. A empresa diz que as pessoas têm o direito de escolher como se locomover na cidade. Defende que o aplicativo ajudar a resolver com tecnologia um problema urbano de mobilidade, atendendo uma demanda.
No final do mês de junho a Câmara dos Vereadores de São Paulofoi uma das primeiras do país a aprovar, em primeira votação, projeto de lei que proíbe o transporte remunerado feito por carros particulares por meio de aplicativos. Na prática, é uma proposta de proibição do Uber. O projeto polêmico, de autoria dovereador Adilson Amadeu (PTB), teve apoio quase unânime na Casa: 48 votos favoráveis, somente 1 contrário, de Police Neto (PSD). Para virar lei, é necessário mais uma votação na Câmara e a sanção do prefeito Fernando Haddad.

Crise? Leilão no Copacabana Palace tem vaca vendida por quase R$ 2 milhões


O 13º leilão do Grupo Monteverde reuniu endinheirados no tradicional hotel carioca

19/08/2015 - 15h18 - Atualizado 19/08/2015 15h19
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Como o leilão era online, a milionária vaca Samma foi exibida em um telão (Foto: Gianne Carvalho)
A tão comentada crise parece não afetar o setor de gado. É o que mostrou a 13ª edição do leilão de gado do Grupo Monteverde, que aconteceu recentemente nos salões do hotel Copacabana Palace e reuniu endinheirados de todo o país. Com presença de artistas e empresários, as madames se distraíam comprando joias no hall do salão, enquanto os maridos davam seus lances milionários. O maior deles, superou todas as expectativas: foi a vaca chamada Samma vendida pela modéstia quantia de R$ 1,8 milhão. Entre os convidados estavam o presidente do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro, Jonas lopes, as atrizes Cinara Leal e Naura Schneider, além de grandes empresários do setor - a grande maioria se hospedou no próprio Copa e, por isso, a segurança no hotel foi reforçada durante a noite milionária

Lava Jato: Camargo Corrêa admite cartel e pagará R$ 104 milhões


A construtora e seu ex-presidente fizeram acordo com o Cade e o Ministério Público

REDAÇÃO ÉPOCA
19/08/2015 - 14h41 - Atualizado 19/08/2015 14h41
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A construtora Camargo Corrêa e dois de seus ex-executivos, incluindo o ex-presidente Dalton dos Santos Avancini, admitiram o crime de formação de cartel em licitações da Petrobras e firmaram um Termo de Compromisso de Cessação com o tribunal do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). O termo, um compromisso de reparar os danos formados pelo cartel, foi homologado nesta quarta-feira (19) pelo tribunal do Cade.
O presidente da Camargo Corrêa, Dalton Avancini, deixou a sede da Polícia Federal em Curitiba nesta segunda-feira (30) (Foto: Paulo Lisboa / Brazil Photo Press / Ag. O Globo)
O termo é um dos resultados do acordo de leniência assinado pela Camargo Corrêa com o Cade e o Ministério Público Federal (MPF) no final de julho, quando a empreiteira se comprometeu a ajudar nas investigações da Operação Lava Jato, da Polícia Federal.
Segundo o Cade, ao firmar o termo, a Camargo Corrêa reconhece sua participação na formação de cartel. É a segunda empresa investigada na Operação Lava Jato a fazer isso - a primeira foi aSetal. O Cade diz que a Camargo Corrêa apresentou depoimentos e documentos que comprovam a existência de um "Clube VIP" de empreiteiras que se reuniam e combinavam os preços nas licitações da Petrobras. Além disso, a empreiteira apresentou novos dados sobre outro cartel, formado nas licitações da Usina Nuclear de Angra 3.
Com o acordo, a Camargo Corrêa será obrigada a pagar uma multa de R$ 104 milhões para reparar danos. Segundo o Cade, é o maior valor já aplicado em um caso de cartel. Ao optar por colaborar com as investigações, a empresa terá redução legal de um terço da pena e de 40% na multa esperada.
Em nota, a empresa confirmou o acordo com o Cade. "Por meio desse Termo, a Construtora Camargo Corrêa reconhece sua participação nas condutas investigadas e se compromete a apresentar ao Cade documentos e informações para o esclarecimento dos fatos, além de aceitar o pagamento de contribuição pecuniária".

PF aumenta para 50 os agentes federais na Lava Jato no PR


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A Polícia Federal reforçou em mais 20 agentes a equipe da Lava Jato no Paraná. Com isso, sobe para 50 o número de policiais dedicados exclusivamente aos trabalhos da operação na superintendência de Curitiba. O contingente, o maior desde o início da operação, é formado por homens especializados no combate a lavagem de dinheiro, desvio de verbas públicas e crimes financeiros.

PF aumenta para 50 os agentes federais na Lava Jato no PR


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A Polícia Federal reforçou em mais 20 agentes a equipe da Lava Jato no Paraná. Com isso, sobe para 50 o número de policiais dedicados exclusivamente aos trabalhos da operação na superintendência de Curitiba. O contingente, o maior desde o início da operação, é formado por homens especializados no combate a lavagem de dinheiro, desvio de verbas públicas e crimes financeiros.

Em 1999, Lula disse que renúncia de FHC seria um gesto de grandeza


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O lulopetismo caiu de pau na declaração de FHC que defendeu a renúncia da presidente Dilma Rousseff (PT) como um gesto de grandeza. Mas hoje aFolha de S. Paulo lembra que em agosto de 1999, quando FHC enfrentava uma grave crise econômica, o principal líder da oposição defendeu a renúncia usando termos parecidos aos do tucano. “Renúncia é um gesto de grandeza e FHC não tem essa grandeza”, disse Lula que fora derrotado pelo tucano na eleição de 1998

Luizão no Pros


toninho pros
O deputado federal Toninho Wandscheer, que reorganiza o Pros no Paraná, oficializou nesta semana o convite ao prefeito de Pinhais, Luizão Goulart (PT), para troca de partido assim da abertura da janela partidária no Congresso. Wandscheer e o filho Alisson – suplente de deputado estadual – também são do PT e já cruzam o Estado formando os diretórios nos municípios paranaenses.
Luizão, apontado pelo petismo como o prefeito mais popular do país, se reelegeu com 93,7% dos votos, avisou que vai fazer parte de um partido “sem grandes caciques” para “não atrapalhar seu futuro político”.

‘Cunha é pilantra de 5ª categoria’, diz Ciro Gomes


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O ex-ministro Ciro Gomes acusou o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), de ser “um pilantra de quinta categoria” que está “mandando e desmandando na República”, disse Ciro ao anunciar em Fortaleza (CE) que junto com o irmão Cid Gomes vai migrar para o PDT. As informações são do Congresso em Foco.
“Não é fácil o trabalhador chegar em casa e ligar a televisão e assistir à novela mal-cheirosa, diária, da ladroeira [em referência à roubo], que não poupa mais ninguém. Pra bem dizer, o presidente da Câmara Federal do Brasil é um pilantra de quinta categoria que tá aí mandando e desmandando na República”, afirmou Ciro na reunião interna do Pros na noite desta segunda-feira, 17.

Fruet corta R$ 23 mi da assistência social


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O prefeito Gustavo Fruet (PDT) mandou cortar 25% do orçamento da FAS (Fundação da Ação Social), o equivalente a R$ 23 milhões dos R$ 92 milhões do orçamento previsto para 2015. A FAS é presidida pela mulher do prefeito, a jornalista Marcia Fruet. Foram cortados os repasses previstos para os convênios ás entidades de assistência social e todos os serviços de proteção social básica e os serviços de proteção social especial. Notadamente, nos últimos meses, cresceu de forma significativa os moradores de ruas, mendigos e pedintes sem assistência nas ruas de Curitiba.
A reclamação pelos cortes na FAS foi exposta na última reunião da comissão intergestores tripartite – que reúne estados, União e Municípios para pactuar critérios de cofinanciamento de serviços de assistência social. O encontro foi realizado no último dia 6 em Brasília.

Dirceu limpou as contas antes do bloqueio


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De O Antagonista
Quando prendeu José Dirceu e sua turma, o juiz Sérgio Moro determinou o bloqueio de todas as contas bancárias em seu nome até o limite de R$ 20 milhões. A ordem judicial incluiu as contas da JD Consultoria, de seu irmão Luiz Eduardo, de sócios e familiares. Mas a Justiça chegou tarde…
Na conta da JD o saldo estava zerado – tudo bem, a empresa foi encerrada em abril. Mas o próprio Dirceu deixou no banco cerca de R$ 100 mil. Muito pouco para quem faturou R$ 39 milhões. Seu sócio Júlio Cesar deixou também cerca de R$ 140 mil.
Mas surpreendente são os saldos de seu irmão (R$ 13 mil), de seu ex-assessor Bob Marques (R$ 500) e do lobista Fernando Moura (R$ 100).
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São muito humildes.

Em “livro de catequese”, Urach liga sua prostituição a pacto com pombagira


Mauricio Stycer

andressaurachnovafase
Um dos maiores lançamentos de 2015, “Morri para Viver” é também um dos piores livros do ano. A biografia de Andressa Urach reúne dezenas de fatos de difícil comprovação, emite juízos de valor moralistas, reproduz preconceitos contra religiões afro-brasileiras e faz proselitismo a favor da Igreja Universal. Em seu momento mais forte, a modelo associa a vida de prostituição a um “pacto” com uma “entidade” em nome de uma “pombagira”.
Chega a ser difícil aceitar a classificação de “biografia” para um livro que descreve tantas situações chocantes sem citar fontes, dar nomes, datas ou informações que ajudem a localizar os fatos descritos. Haveria muitas maneiras de dar substância aos relatos sem correr o risco de ter problemas legais.
andressaurachcapadolivroTemas importantes são levantados, mas a abordagem ora é superficial, ora é mistificadora. A questão da transformação física da modelo é um bom exemplo. Ela revela ter se submetido a 14 cirurgias em menos de quatro anos, algumas em clínicas clandestinas.
Fala das dores que cada cirurgia provocou, mas não consegue tirar das experiências nada além do que observações óbvias: “Adorava me transformar, ser quem eu quisesse ser”. Igualmente pobre é a conclusão de que fez isso por conta de uma “doença” motivada por “sérios problemas espirituais”.
Também é ruim o tratamento que Andressa dá uma questão importante, a sua decisão de ganhar a vida como prostituta. Embora reconheça que fez isso por necessidades materiais, ela atribui tudo que aconteceu em sua vida, a partir daí, a um “pacto” com uma “mulher mística”, que “mexia com entidades”.
Sem citar a umbanda, mas claramente descrevendo um ritual desta religião afro-brasileira, Andressa reproduz o que a mulher teria lhe dito: “Vou te oferecer à pombagira com um banho de champanhe. A cada mil reais que você ganhar, você deve entregar um champanhe de presente para a pombagira”.
“Realizava loucuras na cama invocando o espírito da pombagira. Gritava e beijava bastante, carinho raro entre as prostitutas”, escreve. “Cheguei a faturar mais trinta mil reais por mês trabalhando de segunda a sábado”.
Andressa se transformou, por culpa deste pacto, em “uma mulher desqualificada e ruim”. Mais que isso, diz, “eu era um mulher de índole ruim. Encomendei incontáveis rituais às entidades para fazer o mal. Paguei rituais para expulsar, roubar, provocar doenças e até matar outras meninas, movida sempre por extremo ódio”.
A única coisa que se salva no livro é o trecho em que Andressa mostra como usou a mídia de celebridades para aumentar a sua clientela e valorizar o seu cachê no mundo da prostituição.
O livro torna explícito um jogo de interesses que deixa todos os envolvidos em situação embaraçosa. Jornais, revistas, sites e emissoras sempre souberam que os escândalos e exageros cometidos por Andressa eram programados exatamente com esta intenção. Ganharam audiência e retribuíram com o que a modelo mais queria – fama.
O objetivo maior da obra, porém, não é denunciar quem explora a prostituição, ou mostrar os submundos da cirurgia plástica ou, ainda, os negócios da indústria de celebridades no país.
O interesse é outro. “Morri para Viver” é um livro de catequese. A autora descreve a experiência mística de, internada em coma num hospital, se ver fora do corpo, “na fronteira da morte”, para concluir: “Era Deus. Eu sei que era Deus. Eu vi Sua luz”. Ao sair da UTI, conta, começou a receber visitas de pastores e bispos da Universal, além da mulher de Edir Macedo.
As orações e o carinho recebidos, diz, ajudaram a entender que poderia recomeçar. “Entendi que os nascidos de Deus não são compostos por santos que nunca pecaram, mas por pecadores que pela compaixão divina venceram seus pecados”.
Tudo isso explica a falta de cuidado jornalístico do livro, ainda que a obra tenha como coautor Douglas Tavolaro, vice-presidente da Rede Record, responsável pelo jornalismo da emissora. Os fatos narrados são menos importantes que a tentativa de confortar “sofredores” e mostrar que a igreja pode “curá-los”.

Em “livro de catequese”, Urach liga sua prostituição a pacto com pombagira


Mauricio Stycer
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andressaurachnovafase
Um dos maiores lançamentos de 2015, “Morri para Viver” é também um dos piores livros do ano. A biografia de Andressa Urach reúne dezenas de fatos de difícil comprovação, emite juízos de valor moralistas, reproduz preconceitos contra religiões afro-brasileiras e faz proselitismo a favor da Igreja Universal. Em seu momento mais forte, a modelo associa a vida de prostituição a um “pacto” com uma “entidade” em nome de uma “pombagira”.
Chega a ser difícil aceitar a classificação de “biografia” para um livro que descreve tantas situações chocantes sem citar fontes, dar nomes, datas ou informações que ajudem a localizar os fatos descritos. Haveria muitas maneiras de dar substância aos relatos sem correr o risco de ter problemas legais.
andressaurachcapadolivroTemas importantes são levantados, mas a abordagem ora é superficial, ora é mistificadora. A questão da transformação física da modelo é um bom exemplo. Ela revela ter se submetido a 14 cirurgias em menos de quatro anos, algumas em clínicas clandestinas.
Fala das dores que cada cirurgia provocou, mas não consegue tirar das experiências nada além do que observações óbvias: “Adorava me transformar, ser quem eu quisesse ser”. Igualmente pobre é a conclusão de que fez isso por conta de uma “doença” motivada por “sérios problemas espirituais”.
Também é ruim o tratamento que Andressa dá uma questão importante, a sua decisão de ganhar a vida como prostituta. Embora reconheça que fez isso por necessidades materiais, ela atribui tudo que aconteceu em sua vida, a partir daí, a um “pacto” com uma “mulher mística”, que “mexia com entidades”.
Sem citar a umbanda, mas claramente descrevendo um ritual desta religião afro-brasileira, Andressa reproduz o que a mulher teria lhe dito: “Vou te oferecer à pombagira com um banho de champanhe. A cada mil reais que você ganhar, você deve entregar um champanhe de presente para a pombagira”.
“Realizava loucuras na cama invocando o espírito da pombagira. Gritava e beijava bastante, carinho raro entre as prostitutas”, escreve. “Cheguei a faturar mais trinta mil reais por mês trabalhando de segunda a sábado”.
Andressa se transformou, por culpa deste pacto, em “uma mulher desqualificada e ruim”. Mais que isso, diz, “eu era um mulher de índole ruim. Encomendei incontáveis rituais às entidades para fazer o mal. Paguei rituais para expulsar, roubar, provocar doenças e até matar outras meninas, movida sempre por extremo ódio”.
A única coisa que se salva no livro é o trecho em que Andressa mostra como usou a mídia de celebridades para aumentar a sua clientela e valorizar o seu cachê no mundo da prostituição.
O livro torna explícito um jogo de interesses que deixa todos os envolvidos em situação embaraçosa. Jornais, revistas, sites e emissoras sempre souberam que os escândalos e exageros cometidos por Andressa eram programados exatamente com esta intenção. Ganharam audiência e retribuíram com o que a modelo mais queria – fama.
O objetivo maior da obra, porém, não é denunciar quem explora a prostituição, ou mostrar os submundos da cirurgia plástica ou, ainda, os negócios da indústria de celebridades no país.
O interesse é outro. “Morri para Viver” é um livro de catequese. A autora descreve a experiência mística de, internada em coma num hospital, se ver fora do corpo, “na fronteira da morte”, para concluir: “Era Deus. Eu sei que era Deus. Eu vi Sua luz”. Ao sair da UTI, conta, começou a receber visitas de pastores e bispos da Universal, além da mulher de Edir Macedo.
As orações e o carinho recebidos, diz, ajudaram a entender que poderia recomeçar. “Entendi que os nascidos de Deus não são compostos por santos que nunca pecaram, mas por pecadores que pela compaixão divina venceram seus pecados”.
Tudo isso explica a falta de cuidado jornalístico do livro, ainda que a obra tenha como coautor Douglas Tavolaro, vice-presidente da Rede Record, responsável pelo jornalismo da emissora. Os fatos narrados são menos importantes que a tentativa de confortar “sofredores” e mostrar que a igreja pode “curá-los”.