Convidado pelo Papa Francisco, procurador brasileiro irá ao Vaticano


Rômulo Moreira, ateu, custou a acreditar no chamado para um encontro destinado a debater o tráfico de pessoas e o crime organizado

ZÉ ENRICO TEIXEIRA (COM EDIÇÃO DE ALINE RIBEIRO)
10/03/2016 - 08h01 - Atualizado 10/03/2016 09h40
Papa Francisco durante o oração do Angelus, no Vaticano, neste domingo (Foto: AP Photo/Gregorio Borgia)
Na madrugada de 23 de fevereiro, o procurador de justiça Rômulo de Andrade Moreira trabalhava no escritório de casa quando o celular acusou a chegada de um e-mail. A falta de habilidade para abrir documentos anexados o levou até o computador e, naquela tela maior e mais amigável, Moreira acessou sua caixa de entrada. A mensagem em português trazia o convite mais inusitado que já recebera na vida: “Atendendo a um desejo de Papa Francisco, tenho a honra de convidá-lo para participar da Cúpula de Juízes sobre Tráfico de Seres Humanos e Crime Organizado, a ser realizado na Casina Pio IV, no Vaticano, na sede da Pontifícia Academia de Ciências Sociais”, dizia o texto. Desconfiado de se tratar de uma farsa, Moreira logo recorreu ao Google. “É pelo menos inusitado um procurador da Bahia ser convidado pelo Vaticano”, diz Moreira. “Fiquei intrigado”. Então deu uma busca nos nomes Marcelo Sánchez Sorondo e Gustavo Vera, os remetentes. 
Tratava-se, Moreira descobriu mais tarde, do chanceler da Pontifícia Academia de Ciências Sociais e de um deputado de Buenos Aires. Ambos reais, assim como o convite. Ao lado do Papa Francisco, Moreira participará de um evento que tem como objetivo “reunir juízes que desempenham papel ativo no combate ao tráfico de pessoas, à escravidão moderna e ao crime organizado”. A ideia é que esses juízes do mundo todo dividam experiências para melhorar os resultados de seus países. A Itália não faz distinção entre as carreiras de promotor, procurador e juiz – trata todos como magistrados. Por isso, um procurador em meio aos convidados. O evento acontecerá durante os dias 3 e 4 de junho.
               
Aos 49 anos, Moreira passou mais da metade da vida no Ministério Público (MP) da Bahia. Comemorará 26 anos de carreira no final de abril. Moreira ingressou no MP logo depois de se formar em Direito na Universidade Católica do Salvador. Naqueles primeiros anos da vida de magistrado, trabalhou em pequenas cidades do interior da Bahia – num tempo e lugares em que crimes como escravidão e tráfico de pessoas eram algo corriqueiro, parte da rotina. Na capital, Salvador, Moreira atua como procurador de justiça da área criminal há nove anos. É autor de livros – entre eles, “A Nova Lei do Crime Organizado” – e professor de Direito Processual Penal na Universidade Salvador. Embora tenha um currículo robusto, Moreira não sabe o motivo preciso pelo qual foi convidado a ir ao Vaticano. “Achei deselegante perguntar, sabe?”, afirma. A Pontifícia Academia de Ciências Sociais do Vaticano não respondeu ao questionamento feito por ÉPOCA.
Rômulo Moreira, procurador de justiça da Bahia, convidado pelo Papa Francisco para ir ao Vaticano (Foto: Arquivo Pessoal)
Moreira não será o único brasileiro a participar da reunião global. Vladimir Barros Aras, chefe da Secretaria de Cooperação Jurídica Internacional, do Ministério Público Federal, também está na lista de convidados do Vaticano. Divide com Moreira outra semelhança: a origem baiana. Aras foi um dos procuradores a atuar no caso Banestado e na investigação sobre Henrique Pizzolato, ex-diretor do Banco do Brasil condenado no processo do mensalão do PT, que fugira do Brasil em 2013 para não cumprir a pena de 12 anos e 7 meses de prisão pelos crimes de formação de quadrilha, peculato e lavagem de dinheiro. Pizzolato foi extraditado da Itália em outubro passado.
Na última segunda-feira, dia 7, Moreira recebeu outro e-mail do Vaticano. Dessa vez em espanhol, o remetente agradecia a resposta positiva ao convite. Informava que 45 juízes confirmaram presença até agora. E dizia que o papa se encontrará com os convidados no primeiro dia. Na manhã seguinte, os trabalhos começarão cedo e deverão se estender até o jantar. Moreira planeja mobilizar o Ministério Público em todos os Estados a fim de conseguir estatísticas atualizadas sobre os temas que serão tratados no evento. Pretende apresentar um panorama geral do combate ao tráfico de pessoas, escravidão e crime organizado nos últimos cinco anos no Brasil.
               
Formado numa universidade católica, filho de católicos fervorosos e casado com uma católica, Moreira se declara ateu. O convidado a encontrar o Papa Francisco não acredita em Deus. “Me disseram que, se o papa soubesse, teria repensado o convite”, diz Moreira. Embora convicto em seu ceticismo, Moreira esbanja simpatia pelo papa. “Ele está transformando os dogmas da igreja”, afirma. “Quem sabe não volto convertido do Vaticano?”.