Crise na Saúde no Brasil torna ainda mais difícil fazer hemodiálise



Quem precisa de hemodiálise sofre com o sucateamento da rede pública, denunciam médicos.

O Dia Mundial do Rim foi lembrado ontem, mas a data não foi motivo de comemoração para médicos e muito menos para pacientes. Diariamente, eles enfrentam queda na qualidade no tratamento, seja pela diminuição do número de sessões de hemodiálise, seja pela falta de vagas. A fila de espera só cresce, e as máquinas estão sucateadas. Além disso, o acesso a consultas e exames na rede pública é demorado. Para piorar a situação, clínicas conveniadas, que oferecem tratamento de diálise, estão prestes a interromper as atividades.
Os motivos são atraso no pagamento por parte do GDF e falta de reajuste da hemodiálise por parte do Governo Federal. As instituições alegam que são três anos sem aumento em um cenário onde o dólar e as tarifas de água e luz estão em alta – boa parte dos insumos e equipamentos utilizados são importados. O valor atual por hemodiálise é de R$ 179. As clínicas querem que esse preço suba para R$ 253.
Além disso, médicos da rede pública denunciam o sucateamento dos equipamentos e a falta de manutenção. Em alguns hospitais, os pacientes são obrigados a fazer menos tempo de hemodiálise - técnica que substitui, de forma parcial, algumas das funções do rim -, de acordo com denúncia de entidades que representam os doentes no Distrito Federal.
Acesso difícil
Marcelo Lodônio, nefrologista e presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia – Regional DF (SBN-DF), constata que não há motivos para comemorar o Dia Mundial do Rim, pois faltam vagas na rede pública e o acesso do paciente a um nefrologista ainda é difícil. E a situação piora para aqueles que precisam fazer diálise.
“A situação é péssima, pois são poucos médicos e enfermeiros especializados na área. Além disso, há muitos equipamentos quebrados e, por causa disso, os atendimentos são reduzidos. O que resulta em filas de espera para a hemodiálise”, explicou.
A SBN-DF se preocupa com o fato de o médico ser obrigado a reduzir o tempo de duração de diálise em favor de um caso mais grave. “O tempo ideal na máquina é de três horas e meia a quatro horas. Essa redução compromete a eficácia do tratamento. No entanto, o nefrologista fica em uma situação complexa, porque, se não existem mais vagas e chega um paciente grave, o profissional é obrigado a tirar o paciente mais estável para não deixar o outro sem atendimento”, afirmou Lodônio. Segundo ele, “hoje, o nefrologista trabalha no limite, estressado”.
Versão oficial
A Secretaria de Saúde (SES-DF) informou, por meio de nota, que, atualmente, possui 1.190 pacientes fazendo hemodiálise, sendo 319 nos hospitais da rede pública e 871 nas clínicas privadas conveniadas à pasta. Ou seja, 74% dos pacientes do DF são atendidos na rede conveniada. A demanda atual gira em torno de cinco pacientes novos ao mês. Os hospitais públicos do DF que realizam hemodiálise são os de Taguatinga, Santa Maria, Gama, Base, Asa Norte, Sobradinho e Ceilândia (este só na UTI). Outras oito clínicas privadas possuem convênios com a SES-DF.
Dois meses para conseguir consulta
Segundo o médico Marcelo Lodônio, o DF possui 177 especialistas em nefrologia. Porém, somente cerca de 60 atuam na rede pública. O presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia no DF diz que a situação não é tão melhor na rede particular, pois a espera por consulta gira em torno de dois meses.
A estimativa da SBN é de que, no DF, 1,5 mil pacientes necessitem de tratamento. O crescimento anual de crônicos renais na capital federal é de 10%. Para o nefrologista, as medidas a curto prazo que melhorariam a situação dos pacientes renais no DF seriam a manutenção de aparelhos e a ampliação da rede de hemodiálise.
Natália Andrade, 30 anos, convive há três anos com a doença. Atualmente, não pode trabalhar e faz três sessões de hemodiálise por semana. “Fui obrigada a me afastar para me tratar. É uma doença difícil, que vai degenerando o corpo conforme o tempo e a frequência das sessões. Tenho esperança de fazer o meu transplante, pois minha irmã é compatível comigo”, disse.
Mais de 20 anos de sofrimento
Quem sofre com a doença enfrenta dificuldades constantemente. Alcione Bragança, de 53 anos, tem problemas renais há 21 anos e faz sessões de diálise desde 1994. Ela alega que, ao longo de seu tratamento, perdeu a chance de fazer um transplante por erro na escrita de um laudo, além de ser obrigada a comprar medicamentos que estavam em falta na rede pública.
“Já tive inúmeros problemas no Hospital de Base porque faltavam máquinas, ou então fazia sessões com menos tempo de duração. Agora, faço três vezes por semana em uma clínica conveniada, que não diminui o tempo no aparelho. Hoje, quem precisa de hemodiálise sofre com a falta de estrutura na rede pública. É algo deprimente e angustiante para o paciente”, desabafa Alcione.
Ela confirma que as clínicas frequentemente ameaçam interromper o atendimento por falta de pagamento. O cancelamento, diz, “seria terrível”.
Alcione revela ter sido abandonada pelo marido por conta da doença e, pelo mesmo motivo, não consegue trabalho. Para completar, tentou aposentadoria pela Previdência Social, mas foi informada de que pacientes renais não têm direito a esse benefício.
Alcione não recebe nenhum tipo de auxílio e mora com a irmã, que é quem cuida dela. Atualmente, tenta conseguir o direito ao passe livre, pois precisa se deslocar pelo menos três vezes por semana para fazer as sessões de diálise, fora os dias de consultas e exames. “E quando falta medicamento, sou obrigada a comprar, mesmo sem condições”, completa.
Transplante
Cansada de aguardar por um transplante no Distrito Federal, Alcione se inscreveu na lista de espera do estado de São Paulo. “Meu problema é complexo. Por causa da doença, desenvolvi problemas ósseos e cardíacos. Como em São Paulo fazem mais transplantes, me inscrevi e tenho fé de que logo serei chamada”, diz, confiante.
Necessidade de fazer mais transplantes
O presidente da Associação dos Renais Crônicos de Brasília (Arebra), Alessandro Lemos, lamenta a situação crítica de atendimento aos pacientes renais: “Até para entrar na fila de diálise é difícil, porque precisa apresentar os exames, que levam meses para serem marcados na rede pública. Fazer o tratamento em uma clínica conveniada é o que garante uma sessão completa”. Para Lemos, se houvesse mais transplantes, a situação seria menos preocupante.
Gilson Nascimento, presidente da Aliança Brasileira de Apoio à Saúde Renal (Abrasrenal), tem recebido apelos dramáticos de pacientes de todo o Brasil. De acordo com ele, as clínicas estão endividadas, pois, além de não terem reajuste para a hemodiálise, a verba federal não é repassada pelos governos estaduais na data correta. Com isso, os fornecedores já não querem mais atendê-las. “Quem sofre é quem depende do tratamento para se manter vivo”, diz.
É preciso esclarecimento
Um grande rim inflável chama a atenção da população para a necessidade de prevenção a doenças. A iniciativa é da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplante (ABCDT). De acordo com a Secretaria de Saúde, no Distrito Federal, além do Instituto de Cardiologia, o Hospital de Base também faz transplantes de rim. No ano passado, 77 transplantes desse órgão foram realizados na capital federal. De acordo com a Sociedade Brasileira de Nefrologia, cerca de 10% da população mundial sofre de algum tipo de doença renal, por isso, a importância de a prevenção começar ainda na fase da infância.
Fonte: Da redação do Jornal de Brasília – 10/03/2016