Reino Unido aprova o Brexit e deixará a União Europeia

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O voto pela saída ganhou por 1,2 milhão de votos, gerou incredulidade e abalou o mercado; David Cameron renunciou

TERESA PEROSA
24/06/2016 - 07h51 - Atualizado 24/06/2016 11h43
Apoiadores da saída do Reino Unido, Brexit, comemoram o resultado no centro de Londres  (Foto: ASSOCIATED PRESSAP)
Por 1,2 milhão de votos de diferença, o Reino Unido votou por sair da União Europeia. Os resultados oficiais, divulgados às 7 horas da manhã, horário de Londres (3 da manhã, horário de Brasília), mostram que 51,9% dos eleitores britânicos que foram às urnas nesta quinta-feira (23) defendem que o país deixe a União Europeia, no processo apelidado de Brexit, ao passo que 48,1% votaram pela permanência. 
A consulta popular registrou índice histórico de comparecimento – 72,2% do eleitorado – e recorde de 46,5 milhões de eleitores registrados. Por volta das 4 horas (hora de Brasília), o premiê conservador, David Cameron, principal fiador do voto pró-UE, anunciou que vai renunciar ao cargo. O premiê tentou acalmar o mercado financeiro e também os 3 milhões de imigrantes europeus que vivem no Reino Unido, garantindo que não haverá mudanças imediatas.
O resultado abalou o mercado financeiro e causou incredulidade no mundo todo. No início da madrugada, manhã na Ásia, a libra chegava ao menor valor em relação ao dólar em 31 anos. A cotação estava em US$ 1,32, queda de 11% em relação ao fechamento de quinta-feira (23). Na Ásia, as Bolsas despencavam em Tóquio (-7,22%), Hong Kong (-4,67%) e Seul (-4,09%).
A negociação da ruptura – o Brexit, fusão das palavras inglesas “exit” (saída) e “British” (britânica)  – deve levar dois anos. As consequências econômicas de uma saída devem se estender para o comércio – com prejuízo maior para Londres do que para Bruxelas, já que os britânicos dirigem metade de suas exportações à UE. 
Foi uma surpresa para o mundo todo. Uma pesquisa divulgada logo após o fim da votação, às 22 horas no horário britânico (18 horas, horário de Brasília), feita pela YouGov, aferia o resultado como 52% dos votos pela permanência e 48% pela saída. A última pesquisa feita antes da votação e publicada na quarta-feira (22) também apontava para uma ligeira vantagem para os defensores do lado chamado de Bremain (british, de britânico, remain, de permanência). Pouco depois de as urnas fecharem para votação na noite de ontem, Nigel Farage, líder da legenda nacionalista-populista de direita Ukip e um dos mentores da campanha pela Brexit, declarou em entrevista à SkyNews que o voto pela permanência “parecia ter superado” o voto da saída. O ex-prefeito de Londres Boris Johnson, do Partido Conservador, e também um dos mentores da campanha pró-Brexit, foi visto no metrô de Londres e aparentemente teria admitido a londrinos presentes que seu lado havia perdido.
Entre as principais lideranças políticas britânicas e europeias, a vasta maioria defensora da permanência, o resultado pode ser encarado como uma tragédia – analistas avaliavam que uma eventual saída dos britânicos do bloco poderia precipitar uma desintegração do Reino Unido, uma vez que a maioria dos escoceses favorecia a permanência e um voto pró-Brexit poderia levar a um novo pleito pela independência escocesa. A própria primeira-ministra da Escócia, Nicolas Sturgeon, deixou claro em seu discurso que vai buscar agora um novo referendo sobre o tema. Além disso, havia temores relacionados às consequências de uma eventual saída em termos econômicos. O ministro da Fazenda, George Osborne, alertara durante a campanha para um possível rombo imediato de £ 30 bilhões no orçamento, o que levaria a um aumento de impostos e cortes na saúde e educação, caso a opção por deixar a União Europeia vencesse.
O maior perigo agora é para a própria União Europeia e para o sonho de integração continental acalentado desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O Brexit é encarado como possível desencadeador de um efeito dominó entre outros membros do bloco insatisfeitos com suas diretrizes. O referendo no Reino Unido deve marcar uma nova fase na relação dos países-membros com Bruxelas. “Pode se consolidar agora uma tendência conhecida como ‘integração diferenciada’, em que grupos de países optam por se integrar mais em certas áreas do que em outras, em vez de termos um único modelo seguido por todos”, diz Iain Begg, pesquisador do European Institute da London School of Economics.